Como é correr uma Maratona em estafeta e com uma lesão?

Milano City Marathon 2011

Paulo Morgado correu no domingo a Maratona de Milão, mas em estafeta. A prova foi tudo menos fácil, muito devido a um erro cometido dois dias antes da data da prova: um jogo de futebol entre amigos…

 

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Tenho uns amigos de longa data, cuja profissão os tem levado a percorrer o Mundo. O facto de agora estarem a residir em Milão, e de ter tomado conhecimento da Maratona local em Abril deste ano, permitiu que muito atempadamente planeasse uma viagem que reunisse o útil ao agradável. Ou seja, correr a Maratona e visitar os meus amigos.

Aproveitei uma visita breve do meu amigo a Lisboa, uns meses antes, e desafiei-o para um treino ligeiro. Apesar de eles ainda não serem aficionados da corrida (nunca fizeram uma prova e não têm por hábito regular correr, como forma de desporto. Normalmente fazem apenas ginásio), o prazer que foi o treino ligeiro em Lisboa, enquanto lembrávamos outras aventuras desportivas e lúdicas passadas, levou a que combinássemos fazer a Maratona em conjunto, mas por estafetas. Seríamos quatro, ou seja, tínhamos aproximadamente de fazer uma Mini-maratona cada um.

Até à data nunca tive conhecimento da existência dessa possibilidade mas, mal soubemos que existia essa modalidade de participar na Maratona, não hesitámos e inscrevemo-nos os quatro. Eu, ele e as nossas mulheres. Planeámos a prova em função das etapas. Eu corria a primeira, depois a mulher dele a segunda, ele a terceira e a minha mulher terminava a prova. Estávamos a duas semanas da Maratona de Milão. Tratámos de arranjar as declarações médicas, que atestavam a nossa robustez física para realizar a prova, exigidas pela organização, e estávamos prontos.

Até aqui, a Maratona de Milão era apenas um pretexto para conviver com estes grandes amigos, por um fim-de-semana.

Mal sabia que se ia tornar numa viagem e numa prova inesquecível. A viagem, porque desconhecia a cidade de Milão e tinha a ideia pré-concebida de que se tratava de um pólo industrial, cinzenta e triste, modesta em património cultural-construído e com uma gestão de espaços públicos subalternizada ao funcionalismo que se exigia a uma cidade-industrial.

Chegámos sexta-feira, dia 10, pelas 13h00, e bastou uma tarde de passeio-guiado com o meu amigo pelo centro da cidade para mudar radicalmente de opinião. A impressão é obviamente pessoal e está condicionada a um fim-de-semana. Contudo, a simpatia das pessoas, os espaços verdes cuidados, mas sem serem “bibelot”, as ruas limpas (ainda que em obras a tempo inteiro, porque a Expo é já este Verão), o design das montras, os cafés e as esplanadas, a comida, dos gelados artesanais “nem-se-fala”, o civismo… Tudo isso levou esta cidade para a minha categoria “das cidades a re-visitar”.

O tempo ameno e satisfação de rever velhos amigos, aliado ao facto de sentir em boa forma física, faziam-me querer começar mesmo naquela tarde a prova. Mas não podia ser, porque o que normalmente acontece quando velhos amigos se juntam, e o tempo de que dispõem ser curto, é quererem fazer muita coisa e rapidamente. Para o resto do dia tínhamos já agendado uma partida de futebol, com os pais dos colegas de equipa do seu filho mais novo, num clube local: Milano 3. Eu não jogava à bola fazia cinco anos. Tinha deixado essa prática desportiva semanal, que adorava, por ter feito uma lesão do ligamento cruzado posterior do joelho direito. A partir daí foi só corrida, porque precisava de criar músculo para suportar o joelho e porque preciso da prática desportiva como forma de viver. Muitas minis-maratona, várias meias-maratonas e apenas uma maratona, todas pela equipa Georunners, preencheram o meu curriculum desportivo dessa data em diante.

Jogar futebol na antevéspera de uma prova (ainda que fossemos cada um correr apenas 11 km) não era obviamente uma boa ideia. Contudo, quis o destino mostrar-me que não só não era uma boa ideia, como era realmente uma ideia muito estúpida. Uma rotação com o pé fixo no relvado sintético e… dores horríveis no joelho e também num tornozelo, porque, ao perceber-me que estava prestes a contrair a lesão, passei o peso do corpo para a perna esquerda e fiz um ligeiro entorse no pé esquerdo, mas com uma dor maçadora.

Primeiros pensamentos: lá se foi a participação na Relay-Maratona. A noite e dia seguinte foi a tomar doses generosas de anti-inflamatórios e analgésicos, muito gelo, pé ligado e fitas no joelho. Fiz tudo o que podia, numa vã esperança de ainda ser possível. Fui levantar os dorsais (organização perfeita. Era véspera de prova, um sábado à tarde, e a mini-feira com stands de marcas dos patrocinadores e stand para informações e entrega de dorsais a funcionar sem qualquer tipo de confusão. Impecável), mal conseguindo andar sem dores e, obviamente, com o corpo todo contraído, para não pisar mal. Volto a casa, e continua tratamento e pomada e massagem e…

Vamos dormir e amanhã logo se vê. Mas sentia melhoras e a esperança ganhava força. Não queria acreditar que tinha vindo a Milão e não ia conseguir participar na festa! Mal dormi, com a ansiedade instalada. Nasceu o dia. O grande dia. As dores persistiam, mas eram consideravelmente menores. Mais um comprimido. Pé bem ligado, fita no joelho, meia anti-fadiga, bom calçado (sei que há gente que corre com umas sapatilhas de dedos e outros que correm mesmo descalços. Neste caso, se não tivesse uns bons ténis… nem pensar em correr) e alguma experiência a correr com lesões podia ajudar. Dou uma ligeira corrida, experimentando pisar o chão de forma mais descontraída e… parece que me aguento. Estava entusiasmadíssimo com a recuperação e com a perspetiva de conseguir correr, ainda que longe das melhores condições. Mas só o facto de sentir que ia conseguir participar, depois de ter achado isso impossível, dava-me um alento e energia suficientes para arriscar.

É incrível como os nossos objetivos são facilmente escaláveis e relativizados. Inicialmente planeava correr para o tempo, para um recorde pessoal, e só se o atingisse me daria uma satisfação especial. Dadas as circunstâncias, a alegria de só poder vir a correr era muito maior do que tivesse corrido a Maratona. A alegria era tanta que não só corri a minha etapa planeada, a primeira estafeta da prova, como ainda fui correr a última etapa, isto porque a mulher do meu amigo ficou impossibilitada de participar e tanto a minha mulher, como o meu amigo, estavam a fazer a estreia deles em provas.

Pessoalmente foi uma alegria enorme ter corrido esta prova, apadrinhar a primeira corrida dos meus amigos e saber que os contaminei com o hábito regular desta prática. Quanto à corrida propriamente dita, o circuito é muito bom. Os primeiros 11 km são em piso irregular e muito duro, o que dificulta bastante. Contudo, isso é compensado pelo facto de ser pelo centro da cidade e de haver durante extensos percursos um forte apoio popular. Depois, o piso é essencialmente alcatroado e pareceu-me bem cuidado, pelo que não existiam buracos-surpresa. Existe, já no final, uma curta passagem por um jardim, em piso de terra-batida, o que também não consiste em grandes dificuldades por estar bem cuidado. Todo o enquadramento paisagístico é urbano e atrativo.

Não existe monotonia da paisagem, pois não há longas retas que sejam psicologicamente desgastantes ou que exponham em tempo prolongado o corredor às intempéries (vento, chuva ou, neste caso, ao sol). Os apoios ao longo da corrida, quer para os maratonistas quer para os da prova de estafetas, eram generosos e eficazes, ao ponto de todos lhes poderem aceder sem grandes atropelos. Águas, gel, bananas, bebida isotónica, laranjas, maçãs nas metas, casas-de-banho, tudo muito bem organizado.

Portanto, a Maratona de Milão aconselha-se! Pela organização, pelo circuito e pelo pouco desnível da prova. Oferece ainda condições para os corredores fazerem bons tempos.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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