Como alcancei o meu recorde pessoal na Maratona de Sevilha

A Maratona de Sevilha é uma das provas mais importantes da Europa na distância, principalmente devido a dois fatores: o incondicional apoio do público e o seu percurso, propício para a obtenção de recordes pessoais. Foi o que aconteceu com João Lima, que regressou a capital da Andaluzia para alcançar um novo melhor registo pessoal nos 42.125 metros. Nesta primeira parte (a segunda será publicada ainda hoje), acompanhamos o seu relato até à Meia-maratona…

«Venga, venga! Animo, animo!
Hey! Ho! Let’s go!
Allez allez!
Si! Se puede!
Campeones!!!

São frases de apoio em forma de melodia que perduram nos nossos ouvidos. Incansável este público que nos acarinha durante 42 quilómetros, gritando e aplaudindo durante as horas que medeiam a passagem do primeiro ao último atleta. E que diferença faz na nossa prestação!

Depois da minha inesquecível presença em 2014, tornei a ser muito feliz em Sevilha. E se na altura sabia que iria regressar, que tinha de regressar, saí de Sevilha com a mesma sensação, a mesma sede de repetir aquele turbilhão de emoções que uma Maratona sempre proporciona, mas sendo amplificada em Espanha por uma população que reconhece o esforço de todos e entra activamente na festa.

A somar a tudo isto, uma bonita cidade e uma organização irrepreensível.

Comparando com 2014, o trajecto registou uma pequena alteração que vem do ano transacto. E essa alteração veio eliminar aquele que na altura pensei ser o único ponto menos positivo do percurso: ao passarmos a ponte para reentrar na Isla de la Cartuja, víamos o estádio do lado direito mas tínhamos que lhe virar costas para uma volta de dois quilómetros que nada trazia. Perto dos 40 km, regressar era penalizante a nível mental… Agora temos mais dois quilómetros pela cidade e, quando atravessamos a ponte, vamos logo para o estádio.

Leia também:
DOS 30 AOS 42 KM COM O RECORDE PESSOAL EM MENTE…

Outra vantagem, e importante, é que, na altura que precisamos de apoio (ainda mais!), entre os 35 e 39 km, estamos a passar na zona onde os espectadores mais se acotovelam, chegando mesmo a estreitar a passagem em frente à Catedral, criando um corredor por onde passamos com todo o tipo de apoio.

E a força que isso dá!

A feira mantém-se em muito bom estilo e até era possível erguer o troféu do primeiro colocado, por exemplo, um troféu pesado, em prata, e com a estátua que está no topo da Giralda sevilhana. Entretanto, a Pasta Party foi bem servida. Em relação às que conheço, superior a Paris (que também é boa) e Barcelona (uma decepção, a única dessa prova), mas nada comparada à excelente massa do Porto!

Depois de uma semana de boas previsões meteorológicas, os últimos dias passaram a dar chuva para a manhã de domingo, em especial para a hora da partida. Como bem sabemos, uma coisa é apanharmos durante, outra bem diferente é começarmos frios sem ainda termos aquecido.

Quando saímos do hotel, faltando hora e meia, chovia bem, chuva que durou até cerca de uma hora antes da partida. Depois passou e, mais uma vez, São Pedro foi amigo dos maratonistas (ou “maratonianos”, como se diz em castelhano). Esteve frio, sem chuva e apenas notei vento contra numa recta aos 18 km. Portanto, boas condições para uma Maratona.

Como sempre, a minha intenção numa prova desta grandeza, e ao contrário de outras em que, se me sinto em condições, vou a pensar em determinadas marcas, é chegar ao final, cortar a meta. O que não significa que não dê o meu melhor. Vou a dar o que tenho e o que não tenho mas sempre com os olhos na meta e não em contas. Se vier alguma marca, é um saboroso bónus. Mas o certo é que desde os 30 km que senti que poderia ter um novo recorde pessoal nas mãos…

O primeiro quilómetro foi, como habitual, lento, adaptando o organismo a uma corrida que só iria terminar várias horas depois; no segundo, comecei a ditar o ritmo pretendido, estabilizando o mesmo.

Os quilómetros foram passando e comecei a preocupar-me em cada um que passava, já que o ritmo estava um pouco mais rápido do que achava ser prudente. Tentava mas não conseguia abrandar, pois sentia-me mesmo bem, não apresentando um esforço que fosse pagar adiante.

A partir dos 11 km, e a constatar mais um quilómetro feito mais rápido do que pensava ser a margem de segurança, deixei de me preocupar. Sentia-me bem e de modo algum estava a abusar. Portanto, procurei manter o ritmo.

Tinha idealizado ingerir os “géis” aos 15 e 30 km mas, quando passei a tripla légua, adiei pois não senti ser necessário. Apenas o fiz aos 18, única altura até aos 30 e muitos quilómetros onde senti alguma dificuldade, muito devido ao vento contra na recta. Mal cortámos à direita, tudo passou e não mais tivemos problemas com o vento.

Curiosamente, foi o único gel que tomei, pois a banana que comi aos 25 km terá substituído a necessidade e não senti qualquer urgência em tomar o segundo. Nas últimas duas Maratonas, a do Porto e agora a de Sevilha, de longe as que mais e melhor treinei, foram as duas onde ingeri menos géis, simplesmente por não precisar.

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos