Chegar a meta de maca mas com um sorriso no rosto

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Carlos Charrua termina a Ultra Trail do Sicó de uma forma que nunca imaginava, numa maca, no interior de uma ambulância. Apesar de restar pouco mais de 15 km para o final da prova, decidiu adiar o sonho de cruzar a meta (começaram 224 atletas, terminaram 130…), uma escolha que acabou por ser acertada, como confirmaram os médicos. Este é o último dia d´ «A Semana do Ultra “Survivor” do Sicó».

 

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No abastecimento do Casmilo (93 km) ainda tentei comer uma sopa, mas o estômago também já estava nas últimas. Daqui para a frente a ideia era mesmo chegar ao fim. O tempo melhorou e, nos estradões seguintes, com o auxílio dos bastões, consegui correr enquanto contemplava ao fundo a Serra da Lousã. Branquinha!!!

Aproximava-se mais uma chuvada e à pressa procuro guardar os bastões na mochila para não molhar as mãos, mas sem sucesso. De um momento para o outro a temperatura baixou abruptamente e a noite parecia já vir. Novamente, com as mãos molhadas e geladas, percebo que não há fitas. Tinha-me enganado!… Recuo e sigo por outro caminho, mas as fitas também desapareceram. E por outro, e mais outro… Estava perdido, desorientado e com as mãos congeladas!

«Ok! Tenho comida, bebida e um telemóvel na mochila, mas de nada me servem se não tiver mãos.»

Mas também não fazia ideia de onde estava. Com o frio, o relógio também tinha parado de funcionar e nem as coordenadas GPS conseguiria saber para pedir ajuda… Irritado, gritando alto todos os palavrões de que me lembrava, começo com vómitos. Tinha definitivamente de sair dali.

Tirei uma luva com os dentes, prendi-a nos elásticos da mochila e encolhi a mão para dentro do impermeável. Já tinha utilizado esta estratégia durante a noite, não custava nada tentar de novo. Andei e andei até que encontrei o caminho de volta. Avistei a serra ao fundo e percebe que estava no caminho certo, embora no trilho errado da prova.

Completamente gelado, fraco, com dores de cabeça e sem sentir as mãos, o meu objetivo foi regressar a Casmilo e pedir ajuda.

Naqueles dois quilómetros de trilho em sentido contrário, cruzei-me com uma série de atletas. Não me queriam deixar ir, não queriam que desistisse. Era a solidariedade e a mística do pessoal do Trail a vir ao de cima. Alguns ficaram mesmo zangados comigo: «És doido? Agora que falta tão pouco? Tens fome? Queres barras? Queres um casaco? Uma manta térmica?» Todos procuravam demover a minha decisão, mas o meu corpo dava indicações claras de que aquela era sem sombra de dúvidas a melhor decisão, mesmo já com pouca lucidez.

charrua6Só após chegar novamente a Casmilo é que apercebi que tinham passado duas horas desde que tinha saído. Durante esse tempo em que andei perdido não comi nem bebi nada…

Mais uma vez a eficácia dos meios de assistência/socorro foi excelente. Mal viram o estado em que vinha se aperceberam de imediato de que precisava de ajuda. Levaram-me para a ambulância e avaliaram rapidamente o meu estado de saúde.

«Diagnóstico?»

«Hipotermia, hipoglicemia e desidratação!»

Os bombeiros e a equipa médica que me assistiu e medicou colocaram-me a soro e fui transportado para o PMA de Condeixa. Foram de um profissionalismo e uma simpatia fora de série (aqui tenho de deixar o meu agradecimento e muito obrigado à Vera Faustino, Joana Oliveira, Ana Ghegança e Marco Fonseca).

Duas horas depois, e após uma inédita chegada à meta numa maca, estava quase novo.

Em conclusão:

Fora de contexto pode até parecer estranho, mas, na verdade, “morri pelas mãos”. Foi por terem ficado “congeladas” que não comi, não bebi, não usei os bastões e arrefeci como nunca me tinha acontecido, obrigando-me a andar encolhido e contraído, enchendo-me de dores e antecipando a inevitável fadiga muscular.

Não posso acabar sem deixar de dar os parabéns ao Eduardo Santos, ao Fernando Fonseca e restante comitiva do Mundo da Corrida, bem como aos muitos voluntários, populares, forças de segurança e equipas médicas… Todos fizeram um trabalho exemplar. Provaram que sabem bem o que fazem e que a “máquina” está bem oleada.

A verdade é que a prova tinha tudo para correr mal, já que estava tudo contra nós. Mesmo assim, na minha opinião, foi um sucesso. Não acabei, fiquei triste com o meu desempenho, mas fiquei a salvo. Estou inteiramente convencido de que, se este cenário tivesse acontecido com outras organizações com que já me cruzei, o final de tantos atletas que passaram mal teria sido bem diferente.

Sicó… ATÉ PARA O ANO!!!

 

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Pedro Alves

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