Charrua não fez os trabalhos de casa no Marão…

«A Semana do “não me lembro de chegar à meta de uma ultra naquele estado”» continua com Carlos Charrua a ver finalmente o Sol, além de ter vivido um momento épico com o seu “Homem”, momentos depois do seu frontal falhar devido ao desgaste da bateria, «uma falha de tpc…».

 

Seguia-se uma subida de cerca de cerca de 9 km e 700 D+ até ao Alto de Espinho. Na verdade não era nada muito complicada, não fosse esta terminar numa cota já acima dos 1000m, com o frio e o vento a tornarem-se cada mais nossos inimigos. Meti um ritmo certinho, estava cheio de energia e confiante por voltar a ter boas sensações até que a bateria do frontal começou a dar sinal. PIMBA, toca a registar. Esta foi uma falha de “tpc”, pois deveria ter previsto a sua duração e tê-la trocado no abastecimento. Assim, em vez de o fazer sem stress, com ajuda e numa zona iluminada, tive que parar no meio de nenhures e resolver a coisa às apalpadelas.

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O nascer do Sol no Ultra Trail do Marão

Os trilhos eram cada vez mais, a neve começava a aparecer e a claridade no céu antevia o nascer do Sol. Para mim, isso é adrenalina em estado puro. O estradão que nos levava à base de vida do km 47 era um falso plano duro, longo, enganador, que massacrava os pés, as pernas, as costas e onde frio e vento não davam tréguas. Mas, ao mesmo tempo, vinha lá o Sol, numa paisagem absolutamente deslumbrante que atenuava todo o sofrimento instalado.

Mesmo a chegar à base de vida lá estava o “Homem” à minha espera. Ainda corremos uns míseros metros juntos, mas ficarão para sempre na minha memória como quilómetros de agradecimento. Ele gritava: «Isto é épico, épico!!!» E a verdade é que foi.

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A paragem na tenda foi em modo “Pit stop”. As sensações eram boas, estava confortável, as pernas respondiam e não valia a pena parar e arrefecer. Era ali que, em condições normais, seguiríamos para a esquerda, em direção à base do famoso Km Vertical, para depois subirmos à Senhora da Serra. Só que a neve estragou-nos os planos e tivemos de virar à direita. A partir daqui era tudo desconhecido. Não conhecia o track, não sabia o perfil de altimetria e apenas me guiava pelos esgatafunhos com os km parciais que tinha feito à pressa na cábula.

Sabia que eram entre 9 e 10 km tendencialmente a descer, mas não contava com mais estradões cheios de poças congeladas, com lama “geladinha” a molhar os pés e descidas carregadinhas de pedra, daquelas que massacram as pernas à bruta.

Pedro Alves

Pedro Alves