Carlos Charrua e o seu mail para o amigo São Pedro no Ultra Trail do Marão

Como muitos participantes, também Carlos Charrua ficou insatisfeito quando soube que o percurso total da prova principal do Ultra Trail do Marão tinha sido encurtado, eliminando os pontos ex-libris da prova. Mas a verdade é que a “tareia” no final foi como se tivesse corrido os 104 km do percurso. A crónica da sua corrida começa hoje, no primeiro dia d´«A Semana do “não me lembro de chegar à meta de uma ultra naquele estado”».

 

Épico????? Quase, quase…
Outros diriam: faltou um bocadinho assim…
Eu digo: faltou tipo… 23km.

Os estragos dos dias e noites anteriores e as previsões de tudo o que era canal, site e app de meteorologia apontavam para uma… TAREIA DA GRANDE! A neve caiu em força, o vento e a chuva assustaram toda a gente e o frio pôs em sentido até os mais experientes. Parece que os 104 km tinham passado para segundo plano. A preocupação geral era mesmo o tempo, o terreno e as condições de segurança na serra…

Tal como mandam as regras, no princípio do ano defini objetivos, organizei os primeiros seis meses do ano e estabeleci um calendário de provas. No topo da pirâmide ficaram as 100 milhas do País Basco, Ehunmilak K170. Sim, a fasquia foi colocada bem lá em cima, mas achei que já tinha a consistência e a maturidade suficientes para me “atirar” para uma aventura destas. Chamo-lhe aventura porque acho que mais do que uma prova será isso mesmo, uma grande experiência em que tempo e classificações ficarão literalmente para segundo plano.

Assim, o Ultra Trail do Marão foi desde o início encarado como treino. Tive até de explicar ao prudente “coach” Bruno Brito que fazer esta prova, quatro semanas após os 111 km do Sicó, seria mesmo com essa ideia, treinar! Passar por uma noite comprida, correr numa serra dura, com terreno pedregoso e exigente e, com sorte (ou azar), apanhar condições de tempo extremas.

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PIMBA!!! Parece até que o email foi em “CC” para São Pedro. Tudo o que pedi… tive!

Só que isto de fazer provas em modo de treino, ou treino em modo de provas, ou seja lá o que for, vai sempre dar ao mesmo: EMPENO! O nervoso miudinho apodera-se de nós, o bichinho da competição ataca, os joelhos começam a tremer e acabamos por ir sempre além do previsto.

O “estágio” nas difíceis e atribuladas condições do épico Sicó de 2016 dava-me alguma confiança, ainda assim não facilitei e tive o cuidado de preparar esta prova com muita antecedência. Programei os abastecimentos, previ as trocas de roupa, pedi dicas a amigos que conhecem a zona, conselhos sobre equipamento e alimentação…

Novidade?

Pela primeira vez iria ter apoio externo numa prova. O Ricardo Guerra seria o meu braço direito. Um luxo mesmo à “PRO”, ainda mais porque ele conhece aquela serra, trata a alta montanha por tu e levava o carro cheio de roupa e comida para o que desse e viesse.

Tudo perfeito…

Até o momento em que a organização decidiu encurtar e alterar o percurso em cerca de 23 km com o seguinte comunicado:

«INFORMAÇÃO IMPORTANTE!!!!!! ATENÇÃO!!!

Após reunião da direção de prova foi decido CORTAR na Prova#UTMe105km as seguintes zonas:

PORTAL DA FREITA e SENHORA DA SERRA.

Compressport UTM #UTMe de forma a garantir a segurança dos atletas deve manter-se em cotas abaixo dos 1100m.

A prova #UTM51km irá por ora manter o seu percurso.

Desde o início que o foco da segurança é primordial. Mesmo cortando esses dois pontos alertamos que os atletas vão enfrentar condições atmosféricas complicadas e que o material obrigatório será controlado de forma rigorosa.

A alteração do percurso, utilizando o plano de emergência, fará com que a prova tenha cerca de 83 km.»

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Basicamente caía por terra todo o trabalho de casa feito….

A cábula de Charrua para a parte final da prova

Sexta-feira foi um dia de “apalpadelas”! A contrainformação era enorme e choviam na internet novos percursos, distâncias e previsões de abastecimentos. Certo é que, a uma hora da prova, ainda não conhecíamos o novo percurso, os locais e distâncias entre abastecimentos, nem sequer tinha uma imagem do gráfico de altimetria na cabeça para ir mais descansado.

Mesmo em cima da hora de partida, e já a caminho do controle de material obrigatório, lá apareceu o Ricardo com um papel na mão com os quilómetros e os nomes das terras dos novos abastecimentos. Sem aquecimento feito nem nada, lá rasurei a cábula que levava comigo com as novas distâncias, apenas para ter uma noção da coisa. A verdade é que ainda não tinha começado a prova e já estava “cansado” com todo aquele frenesim.

A sorte é que naquela altura vamos encontrando malta conhecida, atualizamos conversa com amizades feitas noutras “guerras” e pouco a pouco o corpo relaxa, a cabeça acalma e retomamos a concentração.

Três “objetos” que definem uma prova
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Pedro Alves

Pedro Alves

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