Canjinha, massa, presunto, leitão, entorse e matraquilhos para suportar a dor da Ultra Trail do Sicó

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Já é de dia na Ultra Trail do Sicó, mas isso não impede que a sofreguidão seja atenuada, já que o frio, o vento e a chuva dificultam a vida de todos os “sobreviventes” da prova. No penúltimo dia d´ «A Semana do Ultra “Survivor” do Sicó», Carlos Charrua começa a sentir dores nas costas e no pescoço, tudo por ter corrido durante várias horas com os braços recolhidos para poder ter as mãos dentro das mangas do impermeável. Mas a dor não o impede de continuar, ainda mais com o impagável apoio dos “familiares” que forma a enorme família do Trail.

 

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O dia já tinha nascido, mas o frio parecia estar mais intenso. Vento, nevoeiro e neve também regressam para complicar ainda mais a nossa vida. Não tinha dois quilómetros feitos e já estava novamente com as mãos geladas, o que, pouco a pouco, fez-me ficar novamente com muito frio.

O facto de estar encolhido a horas com frio e de trazer, desde o km 35, os braços recolhidos para poder ter as mãos dentro das mangas do impermeável, evitando assim que se molhassem e que arrefecessem ainda mais, fizeram com que as costas e o pescoço doessem cada vez mais, obrigando-me a parar várias vezes para alongar e aliviar as tensões.

Estava farto de correr sozinho e deste modo esperei por um atleta. O Rui Nascimento foi a minha companhia nos 40 km seguintes. Íamos trocando de posição, puxando e esperando um pelo outro, por forma a tornar a “coisa” menos penosa. Mas o monte estava lá: branco, coberto de neve, lindo! Fomos brindados com o Sol quase no topo, mas acabamos por ser uns privilegiados, já que, pouco antes e pouco depois, o tempo esteve horrível lá em cima.

Tive de parar: mesmo à pressa para não me arrefecer com o vento gélido, tinha de contemplar a paisagem… Em quase 9 horas de prova e este era provavelmente o meu primeiro momento de pura satisfação…

Serra abaixo lá fomos em bom ritmo até ao abastecimento dos 67 km, que mais parecia um lar de idosos. Mais uma vez encontrámos uma série de atletas em sofrimento por causa do frio, curvados em frente a uma lareira, todos encolhidos e enrolados em mantas e cobertores. Só víamos os olhos e as caras vermelhas, queimadas pelo frio.

Prontamente fomos questionados pelo “mestre” e anfitrião Vitorino Coragem: «Querem massa?». Respondemos imediatamente que sim. «Sai duas massas!», gritou ele. Mal tínhamos sentados à mesa e já tínhamos pão, presunto, queijo, chá quente e uma pratada de esparguete à nossa frente. Tratamento 5 estrelas!!!

Tal como em todos os outros abastecimentos, os voluntários e responsáveis falavam connosco e tentavam saber e avaliar se estávamos bem, se precisávamos de algo, davam-nos truques e dicas para enganarmos o frio e nos irmos aguentando. Quase de saída, gritam-nos: «Olhem que, no próximo abastecimento, têm “canjinha” à vossa espera. Boa sorte!»

E assim foi, de abastecimento em abastecimento. As longas e duras horas de provas que levávamos já começavam a provocar problemas de estômago, pelo que a ideia era não tocar mais nas barras e nos géis e aproveitar ao máximo as sopas e os alimentos naturais que nos eram disponibilizados em abundância e diversidade.

Quase a chegar a Poios, cruzo-me com um jipe dos Bombeiros e verifico que levava o meu grande amigo Armado. Assim que cheguei ao abastecimento fui logo ter com os bombeiros para saber o que tinha acontecido: «Entorse!»

Mal entro na sala, ouço de imediato: «Charrua, vai uma “matraquilhada”?» Lá estavam eles de novo, o Tiago, o Pedro e a restante “tropa” dos Caracóis a divertirem-se a jogar matraquilhos. Tinham abandonado há muito, mas nem por isso estavam tristes ou esmorecidos. De Pac em Pac andavam eles a dar apoio e ânimo a quem passava. Faziam-no tanto aos atletas da sua equipa como aos restantes. Ali todos somos família, passamos todos pelo mesmo. Lembro-me de lhes dizer: «Isto hoje não está fácil. Com o que já penei, mesmo com uma perna partida, hei-de chegar à meta!».

Depois de mais uma sopa quentinha, lá fomos nós, já com o pensamento no leitão do abastecimento dos 87 km. O dia já estava mais bonito e, entre uma e outra chuvada ou granizada, o Sol atrevia-se a espreitar. Mas os quilómetros começavam a pesar nas pernas e as longas horas contraído com o frio já deixavam marcas.

Por volta dos 90 km, novamente cheio de frio e já com dores insuportáveis nas costas, vejo-me obrigado a baixar o ritmo e, a partir daí, seguir sozinho num ritmo que me fosse mais confortável. Tinha de usar os bastões. Andava com eles às costas e apenas os tinha usado uma vez. «Que se lixem a mãos, assim é que não posso continuar», pensei.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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