Eu quero uma canja quentinha…

No segundo dia d´«A Semana do “não me lembro de chegar à meta de uma ultra naquele estado”», e depois da desilusão de saber que o percurso do Ultra Trail do Marão tinha sido reduzido, Carlos Charrua finalmente começa a sua aventura. E explica a importância de uma canja numa prova.

 

A partida foi serena, nada de grandes velocidades, dando até a entender que ia tudo com muito respeitinho à serra. Não podemos ignorar também que os primeiros 16 km tinham mais de 1000 metros de desnível positivo e ia tudo a tentar poupar as forças para mais tarde. Felizmente São Pedro foi amigo da malta e brindou-nos com uma noite estrelada. Nada de chuva ou neve, apenas muito vento e, à medida que a cota ia subindo, nevoeiro… e frio.

A subida era desabrigada, muito ventosa, longa, daquelas que cansam pernas e cabeça. Pouco-a-pouco foram-se formando pequenos grupos, pois é mais fácil progredir acompanhado. Fiz grande parte dela com o Rui Nascimento, companheiro de outras aventuras, dois dedos de conversa pelo meio e pouco depois da uma da manhã chegámos ao abastecimento de Covelo do Monte. Estava prestes a experimentar o tratamento VIP: cheguei, sentei-me e o Ricardo fez o resto. Tratamento de luxo é assim…

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Aos poucos a noite ficava cada vez mais fria e, mesmo sem chuva, a transpiração e o nevoeiro deixavam-nos molhados e gelados. O percurso não era tão difícil até Mouquim e a maior quantidade de trilhos também tornou a coisa mais animada, mas o estômago já se começava a fartar de doces, barras e afins e o desconforto começava a fazer sentir. Sabia que não teria lá o Ricardo, pois tinham-nos avisado que não dava para aceder de carro ao local pois estava tudo gelado. Ao entrar no segundo abastecimento caiu-me tudo ao chão: vinha gelado, com o estômago a começar a dar voltas e não havia nada quente. A malta não precisa de caviar, mas numa corrida que foi encurtada por causa da neve e das condições extremas, não haver pelo menos um chá num abastecimento a meio da noite deixou-me irritado e desesperado.

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Os 11 km seguintes foram sempre com o pensamento no próximo abastecimento. Segui sozinho, num percurso que agora ficava mais duro, com muita pedra solta, subidas muito inclinadas e descidas muito exigentes para os pés, tornozelos e joelhos. Ainda me perdi umas duas vezes, mas foi por palermice minha. O percurso esteve sempre muito bem marcado.

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Finalmente chego a Pardelhas por volta das 5 da manhã e voltar a ter o Ricardo foi decisivo. Isso, um prato com fatias de presunto e uma canja. UMA CANJA!!! Vou repetir: UMA CANJA!!! Só quem por lá passa é que compreende verdadeiramente o precioso que é ter uma refeição quente e salgada aquela hora, quando o estômago começa a ficar farto dos doces, de bolos, de marmeladas, barras, géis…

Pedro Alves

Pedro Alves