Beber a água da lua para não morrer de sede no Ultra Trail de Mont Blanc

 

sommer

Faltam oito semanas para o  Ultra Trail de Mont Blanc (168 km, 9600 D+). Nada melhor do que um treino entre às 22h30 e às 5h30. Na verdade, o importante é  “beber um bocado da água da lua” que cai sobre a Serra de Sintra, que já tem agendada para breve novo encontro “poético” com Luis Sommer Ribeiro, concretamente numa noite seguinte a uma outra que ele não durma…

 

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A prova que vou fazer, o UTMB, arranca às 17h30, tendo um tempo limite de 46 horas.

Isto significa que vou apanhar duas noites. Este é um ponto que tenho de treinar e testar.

As noites levantam várias dificuldades, sendo a mais evidente a privação de sono. Mas há mais…

Desde logo, de noite, com a luz do frontal perde-se a visão tridimensional. Passa a ver-se tudo a duas dimensões, o que significa que é preciso bastante treino e habituação para distinguir um pequeno buraco no chão, que dá para um entorse, ou uma sobra de uma pedra escondida, que é suficiente para rebentar um joelho.

A noite traz ainda os rigores do frio. Não havendo sol para aquecer, além da temperatura baixar, não existe qualquer elemento externo para ajudar.

Por fim, com a falta de visão, a progressão torna-se mais lenta.

Por estes motivos, este fim-de-semana fiz o treino longo todo de noite. O plano era, como sempre, simples. Sair do escritório na sexta-feira, passar por casa, comer qualquer coisa e arrancar.

Foi assim que, às 22h00 de sexta-feira, estava a chegar ao Palácio da Vila, em Sintra, com o Pedro Lizardo. Lá já estava o Manuel Garcia, que também vai ao UTMB. Esperavam-nos sete “horinhas” de treino.

Entre conversa e preparação de material, arrancámos em direcção ao Castelo dos Mouros às 22h30. Estava a noite perfeita! Quinta-feira tinha estado lua cheia e por isso ainda tínhamos muita luz. O céu estava limpo, a temperatura ideal para correr.

Porém, as instruções eram outras… Simulação total de prova. Ou seja, além do peso do material obrigatório na mochila, as subidas eram para andar e treinar a utilização dos bastões.

Com estas condicionantes, escolhemos um percurso de cerca de 53 kms que dava para ir reduzindo se o tempo apertasse. Fizemos um total de 43, com quase 2000 de D+.

Foi o primeiro treino longo desta série, que correu verdadeiramente bem. Embora tenha saído com as articulações todas a sofrer, as dores foram passando e o ritmo, ainda mais baixo do que o costume, imposto por essas dores iniciais, ajudou-me a poupar as pernas para o fim.

O caminho tinha quatro subidas mais duas. Ou seja, era o S4UP, percurso no meio da serra com quatro boas subidas com ligações simples entre elas, com a parte mais técnica a subir e estradões a descer. Reduz-se assim o risco de lesão. Acrescentámos a subida do Castelo / Santa Eufémia para ir do carro para a serra e depois a Subida da Amizade, no regresso.

Para quem conhece a serra e não o percurso, as restantes subidas foram: Morangos, Kamikaze, Quatro Segmentos e Pedra Amarela. Acho que o percurso podia ir buscar mais desnível na parte da subida para a Pedra Amarela, mas também digo isto porque, desta vez, o fizemos muito devagarinho – já me aconteceu lá chegar completamente derrotado…

Como éramos apenas três, reduzimos muito os tempos de paragem, o que nos permitiu manter sempre o mesmo ritmo lento de progressão, sem afectar os objectivos de treino.

Conseguimos as sete horas quase sem paragens, tendo chegado de volta ao carro às 5h30 da manhã.

Realmente, há pouco para contar, quando Sintra se veste de gala para receber as visitas.

A serra é linda a qualquer hora do dia ou da noite. Estava tão bom que, em mais de um estradão, desliguei o frontal só para “beber um bocado da água da lua” (antes que me acusem de plágio, esta expressão é do Virgílio Ferreira), que estava enorme sobre nós.

Das coisas que ganhei com esta redução das provas em que participo até ao UTMB, Sintra é a mais significativa. Tem funcionado mesmo como uma casa de fim-de-semana. Começo a conhecer cada vez melhor os seus cantinhos e cada vez mais gosto de por lá andar.

O melhor do treino foi a confiança que me deu, ainda mais porque o próximo ciclo de treinos que aí vem será o mais complicado de sempre, que exigirá muita cabeça e trabalho para aguentar.

O próximo treino noturno será em privação total de sono. Em vez de ser no fim de um dia de trabalho, será na noite seguinte a uma outra que não durma…

Faltam oito semanas de trabalho, as dificuldades têm de aumentar agora para me preparar o melhor possível. A questão é que o treino correu tão bem que parece que foi batota…

 

* para ler as anteriores crónicas, clique abaixo no nome do autor

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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