Os dramas, medos e incertezas de Bárbara Fernandes a acompanhar o melhor português no Mundial de Trail

Bárbara Fernandes viveu o outro lado do Mundial de Trail. Namorada de André Rodrigues há quatro anos, foi responsável pelo apoio ao português, que acabou por ser o melhor atleta nacional no Campeonato do Mundo de sábado. Os dramas, a esperança, a incerteza, o medo… Definitivamente, os acompanhantes também sofrem!

 

São quase 6 da manhã e eu, o Paulo Crespo e o José Guilherme Feteira corremos para o estádio de Castelló juntamente com outros tantos portugueses (familiares, namorados, amigos, fãs da modalidade, simpatizantes)… É fantástico ver a comitiva, os atletas, o nervoso miudinho, as caras sorridentes, os últimos abraços e os últimos beijinhos!

Vi-te antes de chegar ao estádio, a aquecer num trotezinho leve…

“ – Dói-te?”

“ – Um bocado!”, respondeste tu…

Dou-te um beijinho e reconheço-te o ar triste e desanimado das últimas semanas… É o Mundial e não estás preparado nem recuperado da tua lesão… E são 85km!!

Afastada a hipótese de uma prestação individual ao teu nível máximo, não queres desistir como no ano passado, mas também não queres desiludir quem te apoia… O importante é garantir uma boa classificação coletiva, mas também não queres agravar a situação do teu pé…

Bem, o dia vai ser longo!

O ambiente dentro do estádio ferve. Na frente da partida reconheço muitas caras dos melhores atletas da atualidade e os nossos meninos e meninas lá no meio

😍… 3,2,1 PARTIDA!

Seguir uma prova desta dimensão é desgastante… Será que se chega a tempo, será que conseguimos dar com o local, será que temos de estacionar longe, será que ele chega bem, será que ele chega??! Sofre-se e muito…

Há que programar bem as coisas, saber onde são os abastecimentos, o tempo que demoramos entre eles e depois delinear toda a estratégia para também poder ver e apoiar o maior número de atletas sem prejudicar a chegada ao próximo abastecimento… Só no sábado contabilizei 25km feitos a andar para frente e para trás, a descer o trilho para ver se já lá vinham os atletas, a subir, a correr para o carro… Puff, uma canseira! (treino longo check)

Borriol km8

Saímos rapidamente do estádio. Sabemos que demoramos menos de 10 minutos a chegar ao abastecimento, mas a adrenalina está ao rubro e nos deslocámos para lá como se os atletas pudessem fazer os 8km em 20minutos!

Segues no segundo grupo, juntamente com os portugueses. Vão todos juntos, o que é muito bom. Vais superdescontraído, olhas para mim confiante enquanto dás um gole de água e continuas junto dos teus companheiros… Uff, um já está, mas ainda falta tanto… Uns dedos de conversa com outros portugueses.

“ – Os meninos vão bem, todos juntos, falta agora as meninas!”

Calculámos que a “piquena” do grupo estaria a chegar e não nos enganámos. A Inês chega com um mega sorriso, seguida pouco depois do sorrisão da Mary e restantes meninas. Está tudo animado! Vamos ao próximo!!!

Les Useres km31

Chegamos cedo e vou recebendo informações num ponto intermédio aos 20km: os meninos continuam coesos como equipa e que vens à frente.

Chegas com o Hélio, mas nota-se que já não vinhas bem, já estavas a começar a acusar algumas dores. Aviso o Rui Pinho, que, por sua vez, avisa o médico Miguel Reis e Silva, que está no ponto dos 40km, para estar alerta quando passares…

“ – Dá-lhe duas chapadas a ver se atina”, diz o Rui Pinho ao Miguel

Fico descansada, penso que a técnica funcionará

Mas na verdade fico apreensiva:

“ – Ainda só está com 30km e já vai assim…”

Toda a gente me diz:

“ – Ele está bem, ele parece bem…”

Mas eu não vejo nada disso

Chega o Luís Fernandes, superconfiante, o Mário, que andou a fazer de lebre ao Luis Alberto (tudo combinado com o tricampeão, néra?), o Luís Duarte, já com uns riscos no cromado, e, um pouco mais atrás, o Bruno Coelho.

Começam a chegar as primeiras mulheres e um pouco depois a nossa Inês:

“ – És a maior!!! Corre com as pernas do pai e com o coração da mãe! És a maior”, gritava a Amélia… Lindo momento!

O tempo vai passando e temos de deixar o Zé Guilherme neste abastecimento com outros portugueses que acompanhassem as meninas para ele poder ver a sua Cristininha ! Até jáááááá…

Atzeneta km40

Sais disparado do pavilhão do abastecimento… Foram as chapadas? 

Sigo uns 50 metros ao teu lado (oops, acho que não podia…), pareces-me seguro, calmo…

“ – Está-te a doer?”

“ – Sim!”

“ – Então vê lá, não abuses.”

“ – Vai ser até rebentar”, dizes tu.

Naquele momento parei e voltei para trás… Os restantes portugueses estavam felizes por verem-te “bem” e perguntavam-me se seguias bem, se estavas bem… Penso que fui sempre um pouco evasiva nas respostas até aqui e desculpem, mas nunca estive descansada. E depois desta sua afirmação fico com medo por ele… Sei que vai dar tudo mas… E depois? Será que desiste? Quanto tempo vai ficar sem treinar e competir?

Nisto sai o Hélio e toca de puxar pelo rapaz para se ir juntar ao André! O Luís Fernandes sai pouco depois e o Tiago Romão, um pouco abalado com dores, vê a sua Rita e ganha forças para mais uns quilómetros.

“ – Está a ficar apertado… Temos de seguir para o próximo abastecimento!”

Benafigos km51

A luta na frente da prova começa a adensar-se e Zack passa em primeiro, supermotivado… 3min depois o público aumenta largamente os decibéis de gritos de apoio! Luis Alberto acaba de entrar na povoação! Tom Evans é terceiro!

Depois de 17min do Zack ter passado, chegas em 17.ª lugar da geral e com uma postura corporal digna de quem tinha começado a prova há uns 10km!! 

“ – Vais bem, vais direitinho”, disse eu naquele momento ao ver a tua determinação, emocionei-me… Ali soube que ias ACABAR!

Ponto de passagem na estrada km55

Vejo por acaso a Sara Brito e mais portugueses a caminho de Vistabella …

“ – Anda, ele está quase a passar”.

Saí rapidamente do carro, na expectativa de ainda te ver… Corro feliz para ti, pois, há 5km, tinha visto um André a recuperar muito bem. De repente… tudo muda!

“ – Não tenho água!!! Falhei o abastecimento, vou ficar sem água até Vistabella.”

Foi como um soco…

“Sem água? Falhou o abastecimento? Como? Agora que vem uma das subidas mais difíceis?!” Fiquei logo a “bater mal” e a preocupação e o stress apoderaram-se novamente de mim….

Vistabella km62

Descemos um pouco no trilho para podermos ver quem chegava primeiro… O Zack aparece, torto, abalado, com um andar desconcertado e olhando sempre para trás… Nenhum espanhol incentiva a sua passagem… Tenho pena do rapaz e tento puxar por ele… Desço mais um pouco no trilho para lhe dar umas palavras de ânimo, não vá algum espanhol mandar-me com uma pedra à testa.

Mas, passado menos de 1 um minuto, o Luis aparece… Um autêntico caçador, que não ia descansar enquanto não apanhasse a sua presa. Sobe tranquilamente, com uma passada firme e empurrado pelos gritos dos seus compatriotas… A determinação com que Luis tenta alcançar Zack é arrepiante!

Os atletas vão passado… Já passaram 20, 25 e o André nada… De repente lá apareces tu, mais torto do que o Zack, mas com bastões.

“ – Água, preciso de água, estou quase a desmaiar, já não aguento”

“ – Aguentas sim, o abastecimento é daqui a menos de 500m e, se não aguentas, vai mais devagar! Vai mais DEVAGAR… Vais chegar ao abastecimento e vais demorar o tempo que for preciso até te recompores!!!”

E de repente perdes o piu e, resignado, continuaste a subir mais calmamente… Não valia a pena lamentar um erro que tinha sido teu e eu também não te podia dar água….

“ – Vamos lá, força, está quase, só mais 200m”

À saída do abastecimento, com outra cara, segues para os últimos 25km… Está quase!!!

Quando o Hélio sai, vem um pouco abatido. A caminhar, tentamos puxar por ele, mas, antes de dar a curva, pergunta:

“ – O terceiro vem longe?”

Naquele momento arrepiei-me… Senti que a sua preocupação estaria prestes a resultar numa desistência. O Luís Fernandes sai com ar cansado, mas segue a passos firme para o último trecho da prova. Entretanto, viria o Luís e o Romão, que também vinham com dificuldades e que deveriam estar a chegar. Mas optamos por avançar até Sant Joan de Penyagolosa, local da meta e que obrigava a uma logística com autocarro. Por segurança, pusemo-nos a caminho! O dia não estava fácil para os portugueses: soubemos da desistência do Bruno e mais tarde do Hélio.

Meta km88

Agora “já só” faltavam 24km e 1400+. A minha preocupação era que o estrago tivesse sido demasiado grande antes de Vistabella e já não desse para reverter o nível de desidratação e cansaço… Mas não havia forma de ir ao ponto intermédio, restava esperar que aparecesses!

Na expectativa de ver o primeiro a chegar, começamos a seguir as fitas… A malta da MiM e da CSP ia passando. Deu para ver alguns portugueses chegar e deu para puxar pela brasileira Fernanda Maciel, que viria a ganhar a CSP. E, de repente, eis que se ouvem gritos:

“ – Vem aí o vencedor!!”

E, para felicidade dos que estavam à nossa volta e mesmo nossa, vimos o Luis… Iria sagrar-se tricampeão do mundo!!! Passa em alta velocidade sobre um trilho super técnico e cheio de calhaus em direção à meta… Que grande prova que este homem fez! Caçou-os a todos!!!! Segue-se o Clemente, mais em esforço do que o Luís. E o Tom Evans, bem disposto e a rasgar pelo trilho…

Continuamos a subir no trilho. Já levamos 2km e continuam a aparecer atletas do Campeonato do Mundo. Encontrámos a Liliana Gomes à espera do Super e, de repente, vemos um zombie.

“ – Zack, you´re a crazy guy but you are going to finish the race!”

Os minutos vão passando, será que ele nunca mais vem? Por entre os ramos das árvores dizíamos:

“ – Ele vem lá… Ah, afinal não é… Espera, vem aí com um chapéu branco… mas é da MiM…”

Ao fim de 9h40 lá apareces, com um ar cansado mas ainda com energia para enfrentar aquele fim ondulante antes da descida final…

“ – Como é possível ainda haver energia para trotar nas subidas?!”

Largo a mochila, agarro na bandeira e tento seguir-te até à meta, mas não dás hipótese nenhuma… Corres a 4 ao km por ali abaixo e eu fico a ver navios. Quando chego à meta já estavas sentado à conversa.

Um beijo, um abraço.

“ – Como estás?”

“ – Estou todo F%$#”#”

“ – Mas conseguiste, foste o melhor, ajudaste a equipa apesar das tuas limitações, superaste-te e terminaste quando, há uns dias, nem vontade tinhas de começar!!”

Agora não sabemos quando voltarás a correr, a treinar… A lesão agravou-se novamente, não sabemos se vais poder cumprir com os teus compromissos no SkyRunning, mas cumpriste este objetivo e não desapontaste! Estamos todos muito orgulhosos e felizes por ti

Sinto-te relaxado, mas não satisfeito

“ – 28.º lugar não é bom”

“ – Eu sei, mas para o ano vingas-te” 

O ambiente na meta é fantástico, os nossos meninos vão chegando, as miúdas também e tudo está bem quando acaba bem!

Parabéns a todos os portugueses que deram tudo pela sua nação e que, mesmo com dificuldades maiores, foram uns valentes e umas valentonas (direi mais que brutas). Sei que todos passaram por momentos difíceis, mas esta é apenas a minha versão… Vocês são enormes, têm a nossa admiração!! Um beijinho especial a todos os portugueses presentes e que puxaram pelo André e todos os outros. Penso que, a seguir aos espanhóis, éramos os mais fervorosos e animados!

Obrigado Paulo e Zé pela aventura… Mais de 2000km juntos!!

Agora venham os ABUTRES 

Até para o ano! É para o pódio 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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