Augusto Pinto Oliveira na Badwater 135

Começou! No terceiro dia d´«A Semana no Vale da Morte», Augusto Pinto Oliveira finalmente “começa” a correr a Badwater 135. O objetivo é fazer a prova em 40 horas. Com temperaturas a rondar os 50 graus… à noite.

    

5, 4, 3, 2, 1… Partida! Assim, às 20h00 em ponto, comecei a correr. Esta primeira parte da corrida é toda praticamente a subir e, como no dia anterior tínhamos estado no local da partida, já tinha interiorizado todo o percurso dos primeiros 92 km (foi na primeira base de vida que levantámos os dorsais). Sabia que  era um pouco complicada. Como geralmente demoro mais ou menos uma hora de corrida até estar completamente estabilizado, quer a nível de respiração, quer a nível muscular, fui sempre mantendo um ritmo não muito alto, embora o Bruno dissesse que estava a ir demasiado rápido (média de 6/7 minutos o quilómetro). A nível de hidratação mantinha uma constância de beber cerca de 250 ml a cada 2 milhas. Baseava os meus quilómetros conforme a minha viatura de apoio estava parada.

A primeira situação mais complicada foi durante esta subida, quando pensava que a minha equipa estava à minha espera do outro lado da estrada (as equipas de apoio eram obrigadas a permanecer do lado direito da faixa de rodagem). Naquele momento gastei toda a água que tinha. Quando chego perto da minha suposta viatura, estava enganado. Continuei a correr… Até os encontrar de novo, naquele curto espaço de tempo, a minha boca ficou completamente seca e comecei a sentir uma grande dificuldade em respirar. Pedi ajuda a uma equipa americana, que rapidamente se disponibilizou para dar água, pois o espírito de entreajuda é muito grande nesta prova. Foi neste momento que entendi porque a organização obriga cada atleta a levar uma equipa com o mínimo de 2 pessoas, pois correr no Vale da Morte sozinho e sem equipa de apoio é praticamente impossível, já que as condições são de tal ordem extremas que, em pouco tempo, uma pessoa pode morrer desidratada.

 

Badwater 135

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A minha equipa – Equipa 85 – manteve-se constantemente atenta, dinâmica e sempre pronta a ajudar, parando a cada 2 milhas, conforme o planeado, intercalando alimentação e hidratação. Quase sempre o meu chefe de equipa chamava-me a atenção, pois não estava a manter uma cadência baixa, continuava a correr sempre a uma média de 6/7 minutos o km, já que, nesta primeira fase, sentia-me com força e com capacidade de conseguir fazer um excelente tempo de prova. Tinha partido com a meta de fazer a Badwater 135 em 40 horas. A este ritmo iria conseguir…

Enquanto a corrida se desenrolava durante a noite, as temperaturas não passavam da barreira dos 50º, pois a escuridão escondia o Sol escaldante e conseguia manter-me mais fresco, embora a minha equipa estivesse a me borrifar constantemente com água fresca.

As retas nunca mais terminam para Augusto Pinto Oliveira na Badwater 135

Cheguei à primeira barreira horária, em Furnace Creek, no km 92. Ainda o Sol estava a começar a nascer e as dificuldades aumentavam, embora um elemento da minha equipa já pudesse me acompanhar nesta fase, que começava logo com uma grande subida, uma reta gigantesca que se perdia no horizonte. Por mais que corresse, dava a sensação de que me mantinha sempre no mesmo sitio… Ao fim de alguns quilómetros, depois de supostamente ter chegado ao cume, a subida mantinha-se e mantinha-se até perder de vista, serpenteando serra acima. E, devido ao Sol e ao calor, que tornavam a minha visão difusa, eu não sabia quando terminava aquele singular trajeto…

Tinha treinado em altas temperaturas (pedalei no interior de uma sauna com temperaturas de 60 e 80 graus) e este tipo de treino deu-me uma maior resistência e capacidade de suportar temperaturas à volta dos 50º, que, com o alcatrão, chegam a atingir mais de 64 graus. Enquanto o relógio avançava e o Sol atingia o seu ponto mais alto, deparo com uma reta com cerca de 10/15 km que atravessava um extenso vale coberto de areia, que era transportada pelo vento. Com um calor insuportável (a sensação da porta do forno a abrir-se era ainda mais intensa), as dificuldades da prova começaram verdadeiramente aqui, com grandes subidas, retas sem fim e temperaturas que faziam disparar os termómetros. Neste momento só queria cumprir as barreiras horárias e com um tempo de “folga” de 2 horas por motivos de segurança (com esta “folga” seria mais seguro e não comprometeria a minha prova, sendo obrigado a abandonar a corrida por chegar fora da hora de controlo).

 

Com o desenrolar da Badwater começo a acusar o jet lag e o sono tenta vencer-me. Quando começo a deambular de um lado para o outro da estrada, sem conseguir correr sobre a linha branca, está definitivamente na hora de descansar. E, para mim, dormir um pouco significa entre 15 e 20 minutos, tempo suficiente para me conseguir manter mais algumas horas acordado e desperto, mantendo uma maior concentração. Mas descansei cerca de 30 minutos na segunda base de vida. Ao fim deste tempo senti-me revitalizado e com força para enfrentar mais uma longa subida.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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