Até sempre, Moniz Pereira!

moniz

Depois das férias, regressamos em grande com uma justa homenagem ao «Senhor Atletismo», Moniz Pereira, que faleceu no último dia 31 de julho (n. 11 de fevereiro de 1921). Numa obra escrita por Fernando Correia e editada pela Guerra & Paz, este é o primeiro dia d´«A Semana de “Moniz Pereira – Vida e Obra do Senhor Atletismo”». 

 

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MP: «Quando cheguei a Lisboa, perguntaram-me qual o atleta que mais me havia impressionado e eu respondi,
sem hesitar: Zatopek. Mas acrescentei que o Zatopek corria mal. O que eu fui dizer… Chamaram-me tudo por eu ter dito aquilo. Felizmente passou o filme dos Jogos Olímpicos e nós verificá-mos todos que o Zatopek corria todo crispado, a fazer caretas, com a língua de fora, braços mal posicionados, etc. Aproveitei para perguntar aos técnicos presentes se achavam que aquilo era correr bem. Sabes o que me responderam? “Ele corre bem da cintura para baixo!…”»

FC: «Sem comentários.»

MP: «Por outro lado, nesses Jogos verifiquei que os nadadores australianos que ganharam a maioria das provas nadavam à pancadaria à água. Era espuma por todos os lados e um barulho desgraçado. Tecnicamente também não eram perfeitos. Mas chegavam primeiro. O nosso Bessone Basto, que foi aos Jogos, nadava melhor, mas ficou em último lugar na sua eliminatória. Eu próprio entrava em provas e fui considerado tecnicamente perfeito no comprimento e no triplo salto. Só que nunca ganhei. Nunca fui campeão de Portugal. O melhor que consegui foi o terceiro lugar.
Por isso defendi e defendo que ser tecnicista é muito bom, mas não é decisivo. O trabalho que se faz é que é decisivo. Uma das leis do treino é assiduidade, é perseverança, é repetir o gesto quantas vezes seja necessário. Afinal, o que é o treino? É a adaptação a um esforço, a adaptação a um gesto, a adaptação a uma distância. Essa adaptação demora muitos anos e as pessoas julgam que é chegar ali e já está. Essa  114 moniz pereira – vida e obra do senhor atletismo adaptação do organismo da pessoa a qualquer destes elementos não se pode fazer a correr. Leva tempo. As pessoas não percebem isto e eu, na altura, também não percebia. Conheci o Zatopek em 1950, nos Campeonatos da Europa, em Bruxelas. A pouco e pouco comecei a contactar com ele, mais tarde igualmente com o Ademar Ferreira da Silva, que era, além de recordista do mundo do triplo salto, um homem
culto e um excelente músico. Tocava violão e cantava aquelas músicas mais em voga. E foi por esses contactos que eu percebi a importância que eles davam ao treino, horas a fio.»

FC: «Quando apanhaste o Ademar a tocar e cantar, faço ideia do que te passou pela cabeça.»

MP: «Juntava-me a ele depois de jantar e ficávamos a tocar e a cantar até podermos. Os brasileiros levavam as caixas dos sapatos e as escovas de dentes e o Zatopek sentava-se ao pé de mim, ao piano, e não dizia nada. Só ouvia. Estivemos juntos nos Jogos seguintes e, em 1960, já não corria, foi como jornalista. Até nessa altura, nos intervalos do trabalho, o Zatopek ia correr, às vezes com botas, para ser mais difícil. Hoje, o Zatopek não faz parte dos trezentos melhores resultados do mundo na prova de 10 mil metros, porque a evolução foi enorme, mas ainda hoje os grandes atletas treinam todos os dias, se possível duas vezes por dia. Para chegar a esta conclusão da importância do treino demorei alguns anos. Nessa altura li uma declaração de Zatopek para os jornais onde dizia o seguinte:
“Após os Jogos Olímpicos e as vitórias, devo dizer que nunca consegui nada senão pelo treino contínuo, pela assiduidade, pela insistência e pela vontade. Só assim, o que parece impossível se torna possível. A vontade adquire-se por autodomínio. Se um indivíduo consegue treinar durante anos consecutivos, chega a ter uma vontade indomável. Chove? Não faz mal. Estou fatigado? Não tem importância. Acima de tudo tenho de correr, pois preciso de treinar. Os meus recordes mundiais serão batidos por um atleta que consiga aguentar um treino mais intenso do que eu.”
Esta era a receita do Zatopek e eu comecei a segui-la desde o início da minha carreira profissional. Nessa altura vi uma revista brasileira, onde um professor de Educação Física dizia isto: “Viver é treinar e treinar é quase vencer.” Eu escrevi isso na minha tese final no INEF e tenho seguido à risca estas máximas. Mas há mais exemplos: o chinês Zu Yanhya, que foi recordista mundial do salto em altura com 2,39 metros, o que é extraordinário, saltava mal. Mas saltava mais alto que os outros. Admito que não concordem comigo, mas não
tenho qualquer dúvida de que um homem que treine todos os dias, mesmo sem técnica, ganha ao tecnicista que só treina duas vezes por semana.
Mas só não concordam porque não viveram sessenta anos de atletismo como eu e porque não têm a mesma experiência. Não há, de facto, receitas médicas para chegar ao êxito, mas treinar muito é decisivo. Claro que os grandes atletas dependem, também, do clima, da alimentação, dos hábitos, dos horários escolares, dos horários de trabalho, das tradições familiares. Ou seja, de mil e um factores, mas treinar muito é fundamental. Treinar muito e com boa orientação. Fui considerado, nos anos oitenta, o melhor treinador de meio-fundo e fundo a nível internacional, mas tenho a certeza de que seria um mau treinador na Rússia, porque, para começar, eu não saía de casa com frio. O treinador tem que estar sempre em acção e deve ser um bom conselheiro, acompanhando de perto os seus atletas.
Vou dar um exemplo de outra modalidade. O Belenenses, aqui há uns anos, foi campeão nacional de andebol de sete. Tinha uma excelente equipa e, na Taça dos Campeões Europeus, tiveram de jogar com o campeão da Jugoslávia. Estes, quando chegaram a Lisboa, perguntaram várias coisas sobre treino e disseram aos jogadores portugueses: “Nós treinamos duas vezes por dia, seis vezes por semana. Só descansamos aos domingos.” O Belenenses treinava duas vezes por semana. Ou seja: o Belenenses, num ano, realizava menos treinos do que os jugoslavos num mês. É evidente que os jugoslavos ganharam com facilidade. Agora ponham ao contrário. Proíbam os jugoslavos de treinar todos os dias e ponham o Belenenses a fazer dois treinos diários durante seis dias e a competir no sétimo. O que é que acontece? Ganha o Belenenses. De certeza absoluta.
Vamos agora supor que um aluno brilhante do Técnico, que está no último ano e tem o melhor treinador do mundo do lançamento do peso, que lhe ensina tudo, só pode treinar, por causa dos exames e dos estudos, ao sábado e ao domingo. Vai competir com um rapaz de Freixo de Espada à Cinta que não tem treinador, mas passa a vida lá na terra a lançar de manhã e à noite o peso. Quem ganha? Ganha o de Freixo de Espada à Cinta, que tecnicamente é muito mau, mas que fez trinta ou quarenta lançamentos por dia. Em futebol, Portugal perdeu
uma vez com a Alemanha, por 3-0. Os jornais diziam, no dia seguinte, que Portugal tinha sido tecnicamente superior!… Ah! Foi? Pois é. Mas perdeu 3-0.»

FC: «Isso tudo significa que a qualidade do treino em Portugal era boa. Só faltava a quantidade.»

MP: «Exactamente. A quantidade do treino é que era insuficiente para se conseguirem resultados de categoria internacional. Mais nada. Por outro lado, em Portugal há o culto da relva e continua a ser proibido pisá-la. Ou nos locais, ou nos estádios que tenham pista de atletismo. Donde não é possível fazer lançamentos, porque não deixam entrar no relvado. Então isto entende-se? Já agora, vou ainda mais além. Já viram que os americanos são bons no basquetebol, não é verdade? E já repararam que, na maioria das casas particulares, há uma tabela de basquete à porta e que miúdos e graúdos passam a vida a fazer lançamentos? Ninguém ensina os miúdos a fazer lançamentos tecnicamente perfeitos. Eles lançam como sabem. Vão a correr para a escola e a bater a bola. De vez em quando param e lançam num cesto dos muitos que há pelo caminho. Não vem nenhum polícia a correr para lhes tirar a bola. Quando regressam a casa fazem o mesmo, dormem com a bola no quarto, começam a treinar a sério aos 13 ou 14 anos e, relativamente aos outros miúdos de outros países, em dez lançamentos metem seis ou sete, e os outros zero ou um. E os americanos são bons na modalidade. Porque será?»

FC: «Em Portugal, com o atletismo, passa-se o mesmo.»

MP: «Em Portugal, a técnica é boa. É verdade. Mas uma técnica perfeita perde qualidade quando não é executada frequentemente, todos o gosto pelo treino 117 os dias ou mais do que uma vez por dia. Isto é que se chama adaptação ao gesto, à distância e ao esforço. A técnica é importante, mas o segredo do êxito está no trabalho constante e no método a aplicar, porque é raro um atleta ter um método de trabalho igual a outro.
Quem pensa assim está redondamente enganado. Cada treinador deve adaptar os seus conhecimentos às capacidades físicas e intelectuais de cada um dos seus atletas. Não há métodos uniformes. O meu objectivo
era conseguir que, um dia, os atletas portugueses também fossem bons. Felizmente consegui.»

FC: «Por outro lado, puseste em vigor a pontualidade e a assiduidade aos treinos como lema, aplicando o TMMP.»

MP: «O “Tempo Médio Moniz Pereira”. É que, quando digo nove horas, não é para chegar às nove e cinco. Donde os atletas têm de acertar o relógio pelo meu.»

FC: «Acredito, pessoalmente, nessa máxima do treino intenso e entendo facilmente que pode estar aí, também, o segredo do êxito.»

MP: «Para perceber se os meus atletas já tinham adquirido o gosto pelo treino, algumas vezes eu dizia-lhes: “No sábado não há treino!” A resposta era: “Oh! Professor, se não se importa, eu venho, mesmo sozinho, dar umas voltas à pista.” Era o que eu queria ouvir.»

FC: «Mas que história!… Como amor ao treino, não conheço melhor. De história em história, estás a deixar aqui exemplos indestrutíveis e irrebatíveis.»

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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