As histórias da vida de Moniz Pereira

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No último dia d´«A Semana de “Moniz Pereira – Vida e Obra do Senhor Atletismo”», livro editado pela Guerra & Paz, o homem que revolucionou a modalidade em Portugal recorda algumas das histórias que viveu ao longo da sua vida. Foram muitas, como a do leiteiro da Beira, o atleta do Sporting vendedor de jornais que corria com um saco a tiracolo de dez quilos entre o Bairro Alto e o Campo Grande, os tiros de partida no corredor de um hotel, etc…

 

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Ao longo de toda esta vida – que valeu a pena – passaram por mim centenas de histórias que tenho arrumadas num canto especial da minha memória, um pouco como em minha casa, onde o arquivo se alastra por várias assoalhadas. Só que eu guardo tudo. Donde guardo, também, as histórias que aqui deixo como forma de partilha com o leitor.

 

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Uma vez fui a uma reunião com vários atletas e treinadores que se realizou em Paris, numa estância de veraneio que se chamava L’Isle de Adam, ou seja, a Ilha de Adão, perto da capital. Sei lá… talvez a uns vinte quilómetros. No dia em que lá fui, encontrei-me com vários amigos do atletismo e havia um torneio de minigolfe, modalidade que eu nunca tinha praticado. Como toda a gente queria entrar no torneio, eu disse que também participava. Eles fizeram contravapor, porque eu era professor de Educação Física e tinham receio que eu ganhasse aquilo com uma perna às costas. Lá os convenci, embora com dificuldade, da minha inépcia para a modalidade e o torneio começou e guardaram-me para último lugar. A saída era logo com um riacho, para aí com uns quinze metros de largura, e depois de passar a bola por cima do riacho, tínhamos três pancadas para a meter nesse primeiro buraco. Começou o jogo e umas bolas caíam no riacho, outras fora do green e algumas perto do buraco, até que chegou a minha vez. Olhei para aquilo, agarrei no taco e fiz aquilo que me pareceu melhor, dando uma pancada seca na bola, de forma a ela sobrevoar o riacho e cair, também, perto do buraco. Então não é que ela entrou directamente? Ou seja, sem saber ler nem escrever, fiz um hole in one. Tive que fugir, porque os meus amigos queriam-me bater.
Nunca acreditaram que eu nunca tinha jogado golfe!

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Uma vez estava a treinar no estádio José Alvalade quando chega ao pé de mim um rapaz novo que me diz:
Eu sou leiteiro na Beira e faço todos os dias, para levar o leite aos fregueses, mais de vinte quilómetros a correr e estou preparado para fazer uma maratona. Se me deixar, corro já aqui.
Fiquei atónito e respondi-lhe:
– Mas tu querias fazer uma maratona na pista? És maluco e eu nunca matei ninguém. Portanto comigo não contas. Mas, para não ficares desiludido, deixo-te correr dois mil metros agora. São cinco voltas à pista e eu vejo logo se tens capacidade, ou não, para ires mais longe.
Diz ele:
– Dois quilómetros, só?… Mas eu faço mais de vinte todos os dias…
– Cinco voltas à pista e mais nada – respondi.
Dei a partida e ao fim de cem metros vi logo que o leiteiro não corria nada. Quando passou à primeira volta, já ia com um aspecto de bastante cansaço. Na segunda volta parecia que ia a morrer. Na terceira volta já vinha devagar e eu pensei que o melhor era mandá-lo parar, não fosse o tipo cair para o lado. Quando passou por mim gritei-lhe:
– Cansado?
Resposta do rapaz:
– Não, não. Solteiro.
É que o leiteiro já não via nem ouvia nada.

* * *

Havia um atleta do Sporting, corredor de dez mil metros, o Afonso Marques, que era vendedor de jornais e todos os dias vinha a correr com um saco a tiracolo que pesava mais de dez quilos, desde o Bairro Alto até ao Campo Grande. Esse era o grande treino dele.
Não vinha treinar a Alvalade, mas corria todos os dias para vender os jornais a distância equivalente a um treino duro. Descia a Calçada da Glória, ele e os outros ardinas, e vendiam jornais pela Avenida da Liberdade, Saldanha, Avenida da República, Campo Pequeno e Campo Grande. Esses rapazes tinham menos cultura e era preciso falar com eles de uma forma mais prática. A eles eu não mandava correr cinco mil ou dez mil metros. Dizia, isso sim, para darem dez ou vinte voltas à pista, porque era essa a linguagem que melhor entendiam.
O certo é que estes ardinas ganhavam sempre as provas, porque treinavam todos os dias. Até formaram o seu próprio clube. Uma vez, e porque nós pregávamos partidas uns aos outros, fui ter com o Afonso Marques, que estava a tomar duche depois de ter ganho os dez mil metros, e disse-lhe.
– Ó Afonso, não te dispas, porque os campeonatos estão renhidos, falta-nos um atleta para a estafeta dos quatro por cem e tu tens de ir correr para o Sporting pontuar e ser campeão.
O Afonso olhou para mim, muito admirado, e respondeu:
– Ó professor, eu acabei agora os dez mil e tenho que ir correr mais?
Digo eu:
– Aquilo não custa nada. Os outros três são muito bons, fazes isso a brincar e, depois, são só cem metros e se tu correres nós pontuamos e ganhamos o campeonato. Não me digas que não queres que a equipa seja campeã!…
O Afonso pensou, pensou e respondeu assim:
– Está bem. Sinto-me cansado, mas faço tudo pela equipa. Quantas voltas são?…
Ou seja: ele não fazia a mínima ideia do que eram cem metros.

* * *

Como se sabe, o Rei de Itália viveu vários anos no Estoril. Nós tínhamos um atleta que curvava muito bem e, por isso, nós dizíamos que ele era o «rei das curvas». Era um sprinter e nos 200 ou na estafeta 4 x 100 ele era fantástico, exactamente nas curvas. Esse atleta era croupier no Casino Estoril. Chamava-se José Maria Santos. Um dia entrou na sala de jogo do Estoril o Rei de Itália e os amigos disseram-lhe que lhe iam apresentar tão ilustre figura. Assim foi:
– José Maria Santos, atleta do Sporting e Sua Alteza o Rei de Itália.
Respondeu o José Maria:
– Estou muito comovido por ver Vossa Alteza e por cumprimentá-lo. É uma honra para mim. E depois deixe-me dizer-lhe que é a primeira vez que vejo um rei fora do baralho!

* * *

A equipa do Sporting foi competir ao Porto e fazia parte da equipa o Alves Pereira, que era oficial do exército, de cavalaria, e que também entrava em concursos hípicos. Nessa altura era o melhor corredor de cem metros em Portugal. No último treino, o Alves Pereira sentiu uma ligeira dor na perna e ficou sem saber se estava lesionado ou não e se devia ir para o Porto. Na véspera da prova, o Alves Pereira estava com a equipa no Grande Hotel do Porto e andava com aquela coisa na cabeça de não saber se podia correr. Então, por volta da meia-noite, resolveu experimentar se a perna estava boa ou não. Nos corredores do hotel começou a simular partidas, tentando não fazer muito barulho, até porque havia uma alcatifa espessa. Só que, a certa altura, o Alves Pereira entendeu que tinha de fazer as partidas com o tiro da pistola. Passava da meia-noite e ouvia-se no hotel:
– Aos seus lugares… Prontos? Puuum.
E lá ia o Alves a correr.
Foi uma tourada naquele Grande Hotel do Porto que ninguém pode imaginar.

* * *

Fomos fazer um Portugal-França a uma daquelas cidades do Sul de França, perto dos Pirenéus, e depois do encontro houve a confraternização habitual, mas aquela foi ao ar livre, no parque da cidade.
Havia orquestra no coreto e baile entre os atletas masculinos e femininos.
A certa altura, os nossos representantes foram dançar. Um dos nossos fundistas, muito mal vestido, muito mal pronto, um daqueles das voltas e não dos quilómetros, provavelmente ainda sem tomar duche, agarrou-se a uma rapariga muito bonita, muito branquinha, muito lavadinha, dançaram, dançaram e de repente começou a trazer a rapariga para junto da mesa onde eu estava com os dirigentes franceses.
Parou à minha frente, sempre enlaçado à jovem, e disse-me:
– Professor, como é que se diz hospedaria em francês?

* * *

Logo a seguir ao termo da guerra civil de Espanha, realizou-se em Barcelona um Espanha-Portugal em atletismo. O presidente da Federação sabia que um amigo dele iria inaugurar uma boîte de travestis e, depois das provas, teve a brilhante ideia de me dizer que iria levar os nossos atletas até lá, para descontrair. Eu achei mal e disse que, por mim, ia era para cama e não me responsabilizava com o que viesse a acontecer. Assim fiz. Era já madrugada, tocou o telefone do meu quarto. Era o presidente da Federação a pedir para eu ir a determinada esquadra de polícia porque estava tudo preso. O que é que tinha acontecido? Os nossos rapazes gostaram da boîte e das «meninas», umas loiras outras morenas. Dançaram com elas, divertiram-se e aquilo acabou com alguns a irem com «elas» para o quarto. No hotel, passado pouco tempo, ouviu-se uma voz no corredor:
– Ó Ruivo, a gaja com quem estás é um homem!…
Bom. Acabou tudo à pancada, houve tiros na rua e foi tudo para a esquadra. Lembro-me que o mais indignado era o nosso atleta Manuel da Silva, que só dizia:
– Então eu, que sou polícia, fui preso?…

* * *

Um dos meus tios viveu no estrangeiro e casou em Cuba, tendo um filho. Era o Jorgito. Um dia veio a Portugal apresentar a mulher e o filho e resolvemos levá-los para a casa de Sintra. Fomos num comboio que parava em todas aas estações e recordo que era o chefe da estação que percorria o cais a gritar o nome da estação e da terra.
Íamos de janela aberta, por causa do muito calor que fazia naquele dia de Verão, e chegámos à estação de Benfica. Ouviu-se a voz do chefe
a gritar:
– Beeeeennnnnfica!
O Jorgito correu para a janela e respondeu:
Benfica não. Sporting!…

* * *

Realizou-se um Espanha-Portugal em atletismo, na cidade de San Sebastián. Acabado o encontro, os dirigentes tinham convites para irmos ao Clube de Ténis (o local mais chique da cidade, onde ia o Rei). Ninguém quis ir, a não ser eu, o João Xara Brasil, que, ao tempo, era director do Jornal do Sporting, e o seu irmão Nuno. Vestimos os nossos melhores fatos e lá fomos. Quando chegámos vimos as mesas todas ocupadas num ambiente verdadeiramente de elite. Até que reparámos que estava uma senhora sozinha numa mesa. Eu disse ao João que era melhor irmos perguntar à senhora se nos podíamos sentar ao pé dela. Chegámos lá e, no nosso melhor espanhol, perguntámos se nos podíamos sentar. Ela respondeu em francês:
– S’il vous plait.
Sentámo-nos e começámos a falar no melhor francês sobre as mulheres francesas, sobre Paris, muito delicados, muito cavalheiros…
O Nuno Xara Brasil, que tinha ficado de lá ir ter, chegou entretanto e deu de caras com aquela cena. Então dirigiu-se à nossa mesa, nós fizemos as apresentações, ele sentou-se e ficou calado a ouvir a conversa. A dado momento pediu licença para intervir e disse (só) isto em francês:
– Minha senhora, o que é que pensa das relações sexuais entre o homem e a mulher?…
Eu e o João ficámos enfiadíssimos, mas a senhora achou graça e foi dançar com ele. Consta mesmo que o Nuno, cada vez que ia a Paris, não precisava de hotel.

* * *

Em 1994 deparei com um anúncio (num jornal) que diz bem da forma como as chamadas modalidades amadoras são tratadas pela Comunicação Social no nosso país.
Aqui vai o texto completo do anúncio e deliciem-se:
«A Federação Portuguesa de Tiro com Armas de Caça lamenta ter de pagar este anúncio para informar que, de 1 a 12 do corrente, se realizaram, em Lisboa, os Campeonatos da Europa de tiro aos pratos, nas disciplinas olímpicas de Fosso Olímpico, Skeet Olímpico e Double Trap.
Participaram 238 atiradores em representação de 35 países, tendo-se registado a presença de vários jornalistas e repórteres fotográficos estrangeiros.
De Portugal, nem um só (0!) jornalista ou repórter fotográfico compareceu, apesar de tanto a Imprensa (desportiva e não só) como a Televisão (todos os canais) terem sido atempadamente convidados a cobrir as competições.
O atirador Manuel Vieira da Silva obteve a medalha de bronze na disciplina de Fosso Olímpico, tendo a Selecção Nacional (J. Rebelo, M. Silva, L. Pereira) conquistado a medalha de prata.
Porque o anúncio já está pago, aproveitamos para referir que, já neste ano de 1994, outros atiradores portugueses obtiveram os seguintes títulos e resultados: Ricardo Queirós – campeão da Europa (juniores) em Fosso Universal; Selecção de Portugal (P. Oliveira, R. Queirós, V. Lopes, A. Lopes) – equipa campeão da Europa em Fosso Universal; Agostinho Ribeiro – medalha de bronze no Campeonato da Europa de Tiro ao Voo; Selecção de Portugal (J. Batalha, J. Caldeira, A. Batista) – equipa campeã da Europa em Tiro ao Voo; Ernâni Santos – medalha de ouro (veteranos) no Campeonato das Américas em Tiro ao Voo.
Embora correndo o risco de continuarmos a ser ignorados pela Comunicação Social reafirmamos que, apesar de usarmos espingardas, não agredimos nem insultaremos os adversários, os árbitros ou o público, pedindo ainda desculpa por, de vez em quando, não termos um ou outro escandalozito para animar o panorama desportivo nacional.
Compreendemos que, regra geral, não saibam sequer com que parte da espingarda marcamos os golos, mas ainda assim não é motivo para não aparecerem. Nunca é tarde para aprender.
Lisboa, 15 de Junho de 1994
José M. Geraldes de Oliveira
(Presidente da Direcção da F.P.T.A.C.)»

* * *

Esta história também já tem uns anos, mas merece a pena contá-la. Fui contra a contratação de técnicos estrangeiros «a dias», a propósito da vinda de um escocês, Andrew Cushing, professor de Matemática, que a Federação Portuguesa de Râguebi resolveu nomear seleccionador nacional, apesar dele continuar a viver em Londres, não assistir à maior parte dos jogos do nosso campeonato e só vir nove vezes por ano ao nosso país!
Disse então que não era possível, em alta competição, realizarem-se treinos por correspondência, pois era um dinheirão em selos e não dava qualquer resultado. Compreendia que algumas federações contratassem técnicos estrangeiros para aquelas modalidades onde não os possuíamos, mas não como «mulheres-a-dias» e vivendo a milhares de quilómetros de distância.
O professor de Matemática Andrew Cushing, ao longo de quase dois anos em que exerceu o cargo de seleccionador nacional, «conseguiu» as seguintes derrotas para o quinze português: 0-50 com a histórias na primeira pessoa 219 equipa inglesa do Gloucester; 13-41 com a Roménia; 8-10 com a Bélgica; 18-20 com a Alemanha; 16-18 com a Tunísia; 15-20 com Marrocos; 11-102 com o País de Gales; e 19-35 com a Espanha.
Quem era capaz de fazer melhor?
É claro que a culpa não é dele, mas sim de quem o convidou e de quem autorizou a sua vinda para Portugal naquelas condições.
Entretanto, na categoria de juniores, com técnicos nacionais, Portugal ganhou à Espanha, à Alemanha e à Dinamarca.
Obrigado mister Cushing. No que diz respeito ao râguebi, estamos conversados, mas quando precisarmos de um explicador de Matemática, voltaremos a chamá-lo.

Mário Moniz Pereira.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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