As doces recordações do Mundial de Ultra-trail de Júlia Conceição

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Pela primeira vez Portugal participou num Campeonato do Mundo de Ultra-trail. Júlia Conceição foi uma das atletas nacionais presentes na prova, uma participação que ainda recorda com enorme carinho. São essas recordações que aborda nesta crónica, que demonstra as suas dúvidas e alegrias antes e durante a prova. 

 

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Esforço, suor, lágrimas, alegria e coragem. Estas são apenas algumas das fases que passei no Mundial de Ultra-trail. Cada palavra acarreta consigo uma história e é esta história que eu, Júlia Conceição, atleta de trail running desde 2010 (e mãe de dois filhos), quero partilhar com os leitores do site CORREDORES ANÓNIMOS.

No passado dia 30 de maio participei no Campeonato Mundial de Ultra-trail Running, na prova de 85 km, acabando por ficar no 62.º lugar da geral feminina, de um total de 109 atletas femininas, no terceiro lugar da classificação portuguesa feminina e, por último, em 13.º lugar na classificação por equipas, sendo que participaram 18 equipas femininas.

Para compreender verdadeiramente a minha história, é preciso contar, primeiramente, todo o meu percurso até esse dia, começando pelo dia em que recebi a notícia. Ainda estávamos no início do ano quando me perguntaram se gostaria de participar no Campeonato do Mundo. Eu nem queria acreditar, não sabia ao certo o que responder, só me lembro de dizer um vago sim, de ter a minha cabeça às voltas, a barriga com borboletas e um sorriso na cara.

Foi uma verdadeira surpresa que me deixou verdadeiramente feliz e entusiasmada, pois um sonho estava a se tornar realidade: Júlia Conceição a representar Portugal, a cantar o hino, a ver a bandeira se erguer enquanto sobe ao pódio… Mas o nervosismo apoderou-se de mim com a realização do curto período de tempo que dispunha para me preparar devido a responsabilidade que o sonha consagrava.

O dilema começou com a preocupação e o medo de me lesionar, mas também se as provas a que já estava inscrita iriam interferir no meu rendimento. Conversei com o presidente José Carlos dos Santos, selecionador dos atletas, que me ajudou a focar no meu objetivo. Eu ainda não queria acreditar que representaria Portugal a fazer umas das minhas modalidades preferidas, o Ultra-trail, mas convenci-me de que, com todo o meu esforço, empenho e experiência de provas passadas, seria o bastante para treinar imenso nos próximos quatro meses.

Na verdade, a minha experiência em Ultra-trail não era assim tanta, pois, já em 2014, praticamente não participei em provas, uma vez que me tinha dedicado a Corridas de Montanha, mais curtas e mais rápidas, participando no Campeonato e na Taça de Portugal, finalizando na altura em terceiro lugar da geral e vice-campeã do escalão feminino.

Para 2015 tinha como objetivo algumas provas de Ultra-trail de modo a garantir pontos suficientes para me recandidatar ao Ultra Trail Mont Blanc, o qual me levou a fazer logo inscrições nas provas Ultra Trail Sicó, de 116 km, e Ultra Trail Serras del Bandolero, de 150 km, que, apesar de serem muito próximas, esperava lutar para terminar num bom lugar, conseguir subir ao pódio e obter os quatro pontos que cada prova fornecia.

Posto isto, fiquei aflita porque não sabia o que deveria fazer. Pensava e debatia comigo própria se devia dedicar-me às provas de Ultra-trail ou ao Mundial, que tanto desejei. Com toda a minha ambição, desejo e força de vontade, no espaço de uma semana fiz 266 km sem me lesionar e senti-me pronta para a próxima, o Campeonato do Mundo, mesmo tendo em 2014 sofrido uma lesão no pé esquerdo, fazendo uma fratura de stress no quinto metatarso, e passado por uma anemia.

A recuperação parecia ter sido um sucesso e eu sentia-me cheia de força e energia, com plena fé nas minhas capacidades e orgulho em mim própria, mesmo já com 46 anos. Na prova de Sicó fiquei em quarta da geral. Já em Bandolero fiquei em primeira da classificação feminina e em quarta da geral. Não me lesionei nestes fins-de-semana e fiquei tão feliz que a minha confiança aumentou e ainda acreditava mais de que era capaz de não desiludir o meu país, pois as minhas capacidades de resistência, as competições mais longas, os treinos e a dedicação levavam-me a crer que a preparação para o Mundial estava a ser realizada com sucesso.

Para completar os meus treinos e obter mais uma experiência maravilhosa, decidi fazer o MIUT 116 km, onde acabei no quarto lugar da classificação portuguesa, o primeiro escalão de veterana (F45) e o nono lugar da geral feminina. Mas sofri imenso: não estava fisicamente preparada, não tinha treino suficiente e específico e o meu psicológico começou a sentir-se fraco.

E se realmente não conseguisse responder às expectativas do presidente José Carlos?

Estava a desesperar, então, lutei com tudo o que me restava e, apesar de ter feito uma lesão na virilha e ter de usar 24 h para terminar a prova, acabei feliz.

Agora sei que é mais difícil para obter bons resultados e atingir novas metas, mas a minha determinação e persistência superam-me e ajudam-me a ultrapassar os obstáculos, pois também sei que ainda tenho muito que aprender e ainda sou capaz de evoluir.

Um dos meus grandes objetivos é alcançar o mais alto nível possível e, por isso, dedico toda a minha alma e todo o meu ser para vencer. Juntamente com a minha ambição eu sei que conseguirei, tal como o desejo de ir ao Mundial se concretizou. Por esta altura estávamos em abril e eu tinha de pensar muito bem no que devia fazer, pois tinha a lesão e a recuperação era necessária. Repousei e repousei… e desesperei.

Não podia descansar assim tanto, tinha de treinar, tinha de me preparar! Felizmente a lesão passou, mas, por precaução, era imperativo fazer exercícios localizados para fortalecer a virilha, assim como diversas massagens para relaxar os músculos. Para continuar a minha preparação realizei alguns treinos com o meu namorado Mark Macedo, que me ajudou imenso a superar os obstáculos, a seguir em frente e a chegar onde estou no mundo do desporto, nos trilhos da Serra da Freita.

O estágio também ajudou imenso: foi a primeira vez que a equipa esteve toda reunida e poder partilhar dicas e histórias foi excecional, uma das melhores experiências que vivi. Foi definitivamente um momento especial que passámos na Serra da Estrela, eu, a Susana Simões, a Ester Alves e a Lucinda Sousa.

Por fim, chegou o grande dia.

Sentia-me tranquila e cheia de confiança e não havia nada que pudesse destruir o meu sonho e acabar com a minha determinação. Contudo, o meu pé esquerdo não se sentia assim tão bem, pois acusava algum desgaste e fadiga, mas não o valorizei e pensei sempre que estava tudo bem. A estadia no hotel com todos os atletas de tantas nacionalidades foi incrível, pois pude partilhar o mesmo espaço com corredores espetaculares e não havia melhor forma de enriquecer a minha experiência.

O dia do desfile dos atletas foi ainda melhor! Tanta alegria e emoção, tantos sentimentos baralhados que nem sabia bem como reagir a tudo. Só conseguia pensar em como realmente os sonhos se podem tornar realidade, basta desejar muito, muito, muito!

No dia da grande missão as emoções já estavam ao rubro. Tinha de ser capaz de fazer 85 km, num desnível positivo de 5300. Se não fossem as palavras do presidente, que me fizeram chorar de alegria e libertar todo o stress e dúvida, eu não teria tanta coragem.

Deu-se a partida e lá fui junto com todos aqueles atletas maravilhosos e ambiciosos, que, como eu, já só pensavam na meta. Queria do fundo do meu coração correr para a equipa e não desiludir Portugal, as pessoas que me apoiaram e escolheram para esta prova. Por isso, até meio da prova, era a segunda atleta portuguesa! Depois começaram as ambições a se desmoronar…

A segunda parte da prova foi muito difícil, sofri bastante com as subidas e descidas e, para completar, o meu pé esquerdo torceu, torceu e torceu sem parar. Era um piso verdadeiramente técnico para o qual eu não estava suficientemente preparada, mas lutei porque desistir não era uma opção, a minha equipa tinha de conseguir classificar-se.

Já no fim a sensação de dever cumprido esteva presente e a alegria manifestava-se em mim, espontânea e continuamente. Agradeço imenso ao José Carlos dos Santos por me ter convidado e acreditado em mim. Proporcionou-me momentos inesquecíveis e maravilhosos. Fiquei muito orgulhosa de mim, mas, na verdade, queria ter tido melhores resultados. Para já vou continuar a lutar para crescer, melhorar e, um dia, ser reconhecida pelos meus feitos no desporto: uma atleta que corre com paixão.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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