As alucinações e as lágrimas de Manuel Quelhas na Ronda del Cims

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O desgaste físico continua a atormentar Manuel Quelhas na Ronda del Cims, chegando mesmo a ter alucinações e a não ter consciência de que dormia enquanto descansava em certos momentos, na parte final. No entanto, quando teve a certeza de que seria um Finisher da prova, a emoção e as lágrimas foram mais do que muitas. A edição de 2016 teve 391 participantes, com 211 a terminarem a prova. Entre eles, Manuel Quelhas.

 

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Não sei muito bem explicar, mas penso que, nestes momentos, entro em modo automático e não penso o que estou a fazer. Simplesmente me deixo ir. Aquilo mete medo. Sim, medo! Felizmente que a fiz de noite, pois assim nem via realmente onde estava. Eram escarpas sem fim, agarrado a correntes, pedra e mais pedra. Demoro duas horas para fazer esta descida e chego finalmente a “Margineda”, onde o ambiente parece de guerra: atletas encostados por todos os cantos. Como pouco, pois o que me apetece é dormir, estou exausto. Não tenho colchão livre e por isso durmo mesmo no chão. Marco 1h00 no despertador e, mal me deito, adormeço. Acordo, troco alguma roupa, preparo novamente a mochila, como e sigo caminho. Em “Margineda” fiquei 2h00.

Agora o objetivo era chegar aos 130 km, em “Pas de la Casa”. O percurso não era complicado, mas não me sentia melhor. Estava cansado, o sono era imenso e claramente não foi suficiente a hora que dormi. Teria de dormir mais um pouco, decidi. Ao chegar à “Coma Bella”, depois das 7h00 de sábado, recebo uma mensagem de incentivo da minha irmã. Digo-lhe que estou de rastos e que vou dormir um pouco. Durmo mais 1h00. Acordo bem melhor. O dia também já está com um sol radiante, o que ajuda. Saio rumo a “Claror”, em mais uma subida sem fim acima dos 2600m. Avanço a cada posto de controlo, estava em automático e o cansaço era tanto que entro em momentos de alucinação. Chego a “Pas de la Casa”, aos 130 km, por volta das 20h45. Vou tomar banho, mudo de roupa, como bem e preparo a mochila para seguir caminho. Aqui fico 1h30.

Faltavam 40km!

Tinha quase 23h00 para fazer o que falta. Tenho tempo, vou com calma. Estes últimos 40 km são três subidas e três descidas, todas acima dos 2600m. Tenho a sensação de que faço a primeira subida e descida muito rápido, embora demore quase 4h00. Depois fui percebendo porquê: como estava muito cansado, por vezes, quando me sentava um pouco para descansar, acabava por adormecer.

Chego à “Incles” às 2h00 de domingo. Faltavam duas subidas e duas descidas. «Está quase!», penso.

A subida e descida que se seguiram a caminho de “Coms de Jan” custaram imenso. A descida é de loucos! Passo por “Coms de Jan” focado na última subida, até aos 2750m. Nada de novo: mais uma parede de pedra, sem fim à vista. Quando finalmente chego, digo para mim: «Está feita, agora só um azar.» Rio-me de mim mesmo.

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Peço aos membros da organização que lá estão se poderia levar uma das bandeirinhas de marcação do percurso como recordação, pois não voltaria mais. «Leva, mas vais querer voltar», respondem. Bandeira na mochila, sigo montanha abaixo, tranquilo, afinal tinha ainda mais de 15h00 para os quilómetros em falta.

Chego ao último abastecimento da prova. A partir daqui faltavam apenas 12000 metros rumo à meta. Nestes últimos quilómetros penso em tudo: família, amigos, como estive perto de desistir, etc.. As lágrimas correm naturalmente e a meta está perto. À chegada, um ambiente fantástico, o melhor de todas a provas que fiz até hoje. E lá estava a família, o meu apoio incondicional.

Obrigado a Sandra, obrigado a mana, obrigado aos amigos.

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Está feito!

DESEMPENHO

SEXTA-FEIRA
Ordino: 07h00m00
Refugi Sorteny: 10h35m29
Coma Arcalis: 13h21m35
Pla de l’Estany: 16h24m37
Pic Comapedrosa: 18h29m59
Refugi Comapedrosa: 19h23m47
Coll de la Botella: 21h34m47
Bony de la Pica: 23h28m13

SÁBADO
Margineda IN: 01h30m48
Margineda OUT: 03h30m37
Coma Bella: 07h08m35
Claror: 13h15m28
Estall Serrer –
Pas de la Casa IN: 20h46m33
Pas de la Casa OUT: 22h11m48

DOMINGO
Incles: 02h00m06
Coms de Jan: 05h20m33
Refugi Sorteny: 08h39m01
Ordino: 10h37m41

Posição: 92.º da classificação geral
Tempo: 51h37m41
Dorsal: 96
Categoria: Veterano 1
Clube: Paredes Aventura

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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