A primeira maratona de Carlos Simões terminou com lágrimas em Madrid

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Carlos Simões finalmente correu a sua primeira Maratona, um desejo antigo concretizado recentemente em Madrid. Conhecida pela sua dificuldade, a prova foi mais complicada  do que o esperado devido as condições meteorológicas, uma forte chuva, além do frio. No final, as lágrimas foram impossível de segurar…

 

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Desde que comecei a participar em provas de atletismo sempre ambicionei experimentar as de maior distância: as tão faladas Meias-maratonas e a prova rainha do atletismo, a Maratona. No caso das meias, era um objetivo que pensava ser possível atingir com maior ou menor dificuldade, desde que houvesse alguma dedicação em termos de treino e planeamento. Já os 42,195 km foi incessantemente uma miragem para mim, com traços de loucura, ou seja, sempre tive uma admiração enorme por quem corria sem parar a distância.
Aqui e ali fui lendo ou ouvindo de profissionais que só se deve fazer uma Meia-maratona quem já corre há um ou dois anos em provas mais curtas, de 10 ou 15 quilómetros. Essa passagem deve ser muito gradual e a preparação deve ser feita de modo específico, no sentido de prevenir lesões e evitar complicações. O mesmo se aplica na passagem para a Maratona, que não é para qualquer um.

madrid4Assim fiz quando, ao fim de um ano de participação em provas, de treinos regulares e específicos, decidi lançar-me ao meu primeiro grande objetivo: a Meia-maratona na Rock’n’ Roll Maratona de Lisboa, em Outubro de 2013. Lembro-me que a distância me assustava. Correr 21 quilómetros, e queria fazê-lo sem parar, era violento! Mas lá fui e, com algum esforço, consegui! No final, fiquei orgulhoso e senti que daí em diante haveria de repetir a experiência e tentar melhorar os meus tempos nessa distância. Nesse mesmo dia comecei a sonhar com a Maratona. Queria fazê-lo!

Uns dias depois estabeleci que o ano 2014 seria para mim o ano das meias para que 2015 fosse o ano da Maratona. E assim foi: comecei em Março de 2014 nos 20+1 kms de Cascais, seguindo-se as meias de Lisboa, Almada, Figueira da Foz, Lisbon Eco Marathon, Meia-maratona de Coimbra, Meia-maratona dos Descobrimentos, em Lisboa, e algumas provas de Trail nessas distâncias (Trail da Carregueira, Trilho das Lampas, Trail do Cabo Espichel e Ultra Trail de Sesimbra), entre outras provas.

Nos últimos meses do ano comecei a preparar a minha participação no Ultra Trail de Conímbriga Terras de Sicó, a realizar a 1 de Março de 2015. Uma prova que acarinho por ser na minha terra de origem (Condeixa-a-Nova) e em que decidi participar na prova de 65 Kms. Sim, seria uma maior distância do que a Maratona, mas as provas de Trail e a sua gestão são bem diferentes.

Antes do final de Março, a minha agenda permitia participar na Meia-maratona de Lisboa, a da Ponte 25 de Abril. Não estava inscrito, as inscrições estavam esgotadas e restavam apenas alguns passatempos como última oportunidade para participar. Concorri a dois passatempos: um em que deu a possibilidade de participar na prova de Lisboa e outro em que poderia ganhar uma inscrição para a Meia-maratona de Lisboa ou para a Maratona de Madrid. Saí vencedor de uma inscrição para a prova da capital espanhola, a 26 de Abril de 2015.

Quando soube do resultado do passatempo, apercebi-me que tinha ganho um problema para resolver! Se por um lado já tinha determinado que a minha estreia na Maratona seria em Outubro 2015, em Lisboa, por outro não queria desperdiçar esta grande oportunidade. Sabia que tinha pouco tempo para me preparar, mas o facto de nos últimos meses ter treinado para o Trail de Conímbriga – Terras de Sicó fazia com que tivesse consciência de que estava preparado para correr os 42,195 quilómetros, embora sentisse que muito ainda haveria a fazer para conseguir ritmos que me permitissem obter um bom tempo em prova.

Decidi que não podia desperdiçar a oportunidade e que a participar seria para experimentar a distância, desfrutar da prova e fazer o melhor tempo possível, sem que essa fosse a principal preocupação. Inscrevi-me e comecei a procurar alojamento e transporte. A aventura começava…

Dos dias que faltavam, e que era pouco mais de um mês, planeei o meu treino de forma a fazer alguns treinos longos, dois dos quais com 30 quilómetros, alguns treinos de intensidade (séries curtas ou séries longas) e outros treinos de reforço muscular e flexibilidade. Tive muito cuidado para não sair muito do planeado. No entanto, sabia que a prova era dura e por isso fiquei com o receio de não ter treinado o suficiente, como aliás ficamos sempre, como sabe quem corre!

Comecei por analisar os transportes para Madrid e havia a possibilidade de ir de comboio, carro ou avião. O comboio era o mais económico mas mais demorado, cerca de 10 horas de viagem para cada lado, ainda que durante a noite. De carro, como não encontrei com quem partilhar a viagem, não compensava em termos de preço e incómodo. Decidi que ia de avião e comecei a estar atento aos preços low cost. Passado uns dias lá comprei a viagem. Como o objetivo não era visitar a cidade, pois não dava para uns dias de férias com a família, programei a viagem para partida no sábado à hora de almoço e regresso no domingo no final da Maratona. Sabia que não ia ter muito tempo para passear e descontrair, mas ainda tinha esperança de aproveitar o final da tarde de sábado para conhecer alguma coisa, pois nunca tinha estado em Madrid.

madridCheguei ao aeroporto, os procedimentos habituais para embarque e atraso na entrada para o avião. Partimos cerca de 40 minutos mais tarde. Antes da descolagem e quando me preparava para desligar o telemóvel, dei uma vista de olhos na página Facebook da Rock’n’Roll Maratona de Madrid, onde avisavam que havia um atraso de algumas horas na entrega dos dorsais. Como ainda demoraria cerca de uma hora e meia para lá chegar, pensei que a entrega já poderia estar normalizada quando lá chegasse. Desliguei o telemóvel e descontraí na viagem.

Chegado a Madrid, quase às 17 horas, havia que me apressar para levantar o dorsal, na outra ponta da cidade, para depois dar entrada a horas aceitáveis no quarto reservado. Apanhei três linhas de Metro e lá cheguei à Expodepor – Feira do Corredor. Uma fila interminável para entrar, em que desperdicei uns 45 minutos, retirou-me a possibilidade de explorar melhor os expositores presentes. Rapidamente deixei o local para novamente apanhar o metro e chegar até perto da Gran Vía, onde tinha o quarto reservado e que distanciava cerca de 10 minutos a pé da linha de partida, na Plaza de Cibeles do dia seguinte.

Deixei as minhas coisas no quarto e, mais descansado, aproveitei o tempo para dar um breve passeio. O tempo estava escuro e a chuva parecia querer chegar. Fui até à Praça de Espanha e começou a chover. Ainda assim consegui dar um salto à Praça del Callao e à Porta do Sol, mas já não arrisquei mais para não ficar encharcado. Jantei e fui para o quarto descansar e organizar as coisas para o dia seguinte.

Na manhã seguinte estava tempo de chuva, ainda assim ainda não chovia quando saí do hotel. Tomei o pequeno-almoço e aproveitei para tomar café logo ali perto, fazendo um ligeiro aquecimento até à zona da partida. Tirei umas fotos e fui procurar a minha “caixa de partida”, pois a entrada para a linha de partida era feita por blocos consoante os tempos. Estava muita gente e a confusão habitual nestas provas, mas tudo descontraído.

Eis que começa a prova e, passados dois minutos, começa a minha primeira Maratona, quando passo na linha de partida. Tinha como ambição terminar a prova abaixo das 3h30. Sabia que, para isso, teria de correr a uma média abaixo dos 5m/km. Saí com uma média entre os 5m25/km e os 5m35/km, mas sabia que a prova começava com uns seis quilómetros a subir, pelo que considerei que tinha partido bem. Ao sexto km o percurso da prova começava a descer e foi aí que comecei a impor o ritmo para chegar à minha média pretendida, que consegui por volta dos 15 kms.

A prova estava a ser excelente e o apoio do público era magnífico. Muita gente nas ruas e sempre a puxar por nós. Foi extraordinário! Passei a distância da Meia Maratona com 1h46. Sabia que tinha de recuperar um minuto para entrar no ritmo pretendido. Era altura de ingerir a barra de proteína que levei para ajudar a recuperação imediata dos músculos. Mas, dali em diante, não consegui andar muito mais rápido, principalmente a partir do quilómetro 26, quando entrámos numa zona de parque, silenciosa e sem público.

Começámos a subir e, ao pé de mim, dois atletas começaram a conversar. Alguém mandou-os calar, referiu que estávamos numa altura da prova em que era preciso a concentração dos atletas e pediu algum respeito. O silêncio imperou e ouviu-se apenas o som do bater de muitos sapatos no solo. Respeito! Foi isso que também senti nesse momento, mas também algum receio do que poderia sentir dali para a frente…

Ainda assim, mais à frente voltámos novamente a descer e consegui chegar aos 34 quilómetros da prova numa média abaixo dos 4m49/km. Sabia que era ali que começava a Maratona e que era a partir dali que começava uma subida com quase 100 m de desnível positivo até ao final da prova. Sempre a subir, lá fui baixando o ritmo, mas sem querer sair muito da média conseguida. A chuva ia ficando cada vez mais forte, assim como o apoio das pessoas que debaixo dela não se cansavam de nos aplaudir. Vinham-me à cabeça as imagens de algumas chegadas da Volta a Portugal em bicicleta que via na TV, em que os ciclistas eram “apertados” com a multidão que os apoiava. Ali era mais ou menos assim, um ambiente fantástico.

As crianças esticavam-nos a mão para lhe tocarmos, os pais compunham os resguardos para a chuva dos carrinhos dos seus bebés. Impressionante como nem a chuva os demovia de estarem ali a dar o seu apoio e a vibrarem com a Maratona, quase tanto como nós.

Cheguei ao quilómetro 40 e as forças já iam fracassando. A subida continuava, a chuva intensificava-se e o objetivo de terminar a prova abaixo das 3h30 era colocado de lado. Ainda assim, o meu pensamento era que não podia desperdiçar tudo o que tinha sido feito até ali e que era muito bom. Aproveitei uns géis para me dar mais alguma energia física e mental e tentei manter o ritmo até ao final.

Quando entrei no último quilómetro, comecei a desapertar a bandeira portuguesa que levava na cintura e coloquei-a nos ombros. Segura pelas mãos, a bandeira voava ao vento e à chuva e lá entrei na reta final, a ouvir “Fuerza português!” e a desfrutar do momento extraordinário que é terminar a Maratona, a minha primeira Maratona.

madrid2Quando cortei a meta, com 3h36m19, chorei! Chorei pela emoção do momento. Chorei porque terminava uma Maratona. Chorei porque o choro saía naturalmente. Recebo a medalha, dedico-a como faço sempre, olhando para o céu e agradecendo ao meu anjo, o meu irmão, que lá em cima me protege e que mais uma vez me levou até à meta com saúde.

Fiquei feliz por conseguir concluir o que pensava em tempos que só era coisa para valentes. E… é! Correr uma Maratona, 42,195 quilómetros sem parar, é coisa só para valentes, para pessoas que, para além de estarem minimamente treinados, têm de ter uma força mental muito grande, que lhes permita gerir muito bem o esforço, a alimentação, a hidratação e, principalmente, as emoções.

As pernas doíam, chovia cada vez mais e ia arrefecendo. Troquei alguma conversa com outros portugueses, mas queria sair dali rapidamente. Estava encharcado e com frio, queria tomar banho e vestir roupa seca e quente. Procurei a saída e perguntei a um atleta qual era o melhor modo de chegar a Gran Vía. Ele, tremendo e com os lábios roxos, disse que era em frente. Quis sair rápido dali para não ficar como ele. Entretanto, outro português, do Porto, apareceu no meu caminho e seguimos juntos, conversando e tremendo. Despedi-me dele e rapidamente cheguei ao meu quarto para tomar um banho que, rapidamente, fez-me sentir outro.

A chuva continuava. Decidi comer qualquer coisa num restaurante ali próximo, onde havia perto uma entrada para o metro, que me dava jeito para regressar ao aeroporto. Já com o tempo apertado, corri para o metro e depois para a porta de embarque. Dei por mim a correr e a pensar que não me doíam as pernas. Abençoada barra de proteína que já não dispenso em provas mais longas… Cheguei a Lisboa e a família esperava-me. Esperava-me o melhor prémio de qualquer corrida.

Esta minha aventura terminava. Terminava feliz e tranquila, como se quer sempre, e mantendo desde já o objetivo de participar na Maratona de Lisboa, em Outubro. Aliás, cada vez mais faz sentido as palavras de um amigo:

«Maratona é Maratona! Marca-nos! Torna-nos diferentes!»

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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