A medalha de ouro de Carlos Lopes segundo Moniz Pereira

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O triunfo de Carlos Lopes na Maratona dos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, depois da prata nos 10 mil metros em Montreal 1976, é um dos fatos mais marcantes do atletismo nacional. No segundo dia d´«A Semana de “Moniz Pereira – Vida e Obra do Senhor Atletismo”», abordamos o tema, com Moniz Pereira a revelar alguns segredos da prova. A edição do livro é da  Guerra & Paz.

 

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FC: «E estamos a chegar a Carlos Lopes.»

MP: «A esperança de Portugal obter mais uma medalha passava, agora, para a última prova do programa: a maratona. Na verdade, Carlos Lopes fizera uma época com grandes resultados, que começara com a vitória da São Silvestre de São Paulo, onde batera o colombiano Vítor Mora, segundo classificado, por 34,30 segundos, e o brasileiro José João da Silva, terceiro, por um minuto! Em 2 de Fevereiro, foi terceiro classificado na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Crosse, contribuindo da melhor forma para mais uma vitória do Sporting.
Quinze dias depois foi campeão de Lisboa de crosse e, a 4 de Março, ganhou o Campeonato de Portugal da mesma especialidade, em Viseu.
Ainda em Março, fez parte da equipa do Sporting que ganhou a estafeta Cascais-Lisboa, correndo o terceiro percurso (Parede-Paço de Arcos) e, no final do mês, foi campeão do mundo de crosse, pela segunda vez, numa sensacional corrida realizada no hipódromo de Meadowlands, perto de Nova Iorque, contribuindo decisivamente para a obtenção da medalha de bronze que a equipa portuguesa conseguiu, à frente do Quénia, Itália, Inglaterra, Espanha, Nova Zelândia, França, Irlanda, Alemanha e Bélgica.
A 14 de Abril, Lopes foi vítima da louca ambição dos organizadores da Maratona de Roterdão, que, pretendendo que o vencedor da prova batesse o melhor tempo mundial desta corrida, contrataram várias “lebres” para imporem, de início, um andamento capaz de levar a esse desfecho. O que aconteceu foi que, perante tal andamento, os principais favoritos desistiram. Entre eles estava Carlos Lopes. Com efeito, Lopes passou aos 5 quilómetros em 14.25 s; aos 10 km, em 29.13 s; aos 15 km, em 44.44 s; aos 20 km, em 1 hora. Claro que aos 25 km parou, quando ia à frente da corrida. Os que não desistiram terminaram completamente rebentados, como demonstra o tempo do vencedor, Sahanga, da Tanzânia, 2 h 11 m 12 s, que não tem qualquer categoria internacional. Em 3 de Junho, com muita chuva, no Torneio Internacional do Sporting, foi 5.º nos 5 mil metros, com 13.35,8 s, e nos jogos da West Athletic, em 16 de Junho, venceu os 10 mil metros com o tempo de 28.05,40 s.
Entre 28 de Junho e 2 de Julho, fizemos uma digressão pelos dois grandes meetings do Norte da Europa, juntamente com Fernando Mamede. Este ganhou as duas corridas. Em Oslo, Lopes foi terceiro nos 5 mil metros, com 13.16,38 m, batendo o seu máximo pessoal na distância, e João Campos foi sétimo, com 13.19,10 s, também máximo pessoal. Em Estocolmo, onde Mamede bateu o recorde do mundo dos 10 mil metros, Lopes foi segundo (27.17,48 s), superando igualmente o anterior máximo do queniano Henry Rono!»

FC: «Fabuloso, acrescento eu.»

MP: «Perante estes resultados, que provavam estar Carlos Lopes na sua melhor forma de sempre, tinha a esperança de que a sua actuação na maratona olímpica correspondesse à expectativa de todos os portugueses.
No entanto, fiquei alarmado quando, já em Los Angeles, para onde tinha ido antes do nosso campeão, me chegou a notícia de que Lopes tinha sido atropelado, em Lisboa, quando corria na segunda circular. Como se calcula, fiquei em pânico e só voltei à normalidade quando, no Aeroporto de Los Angeles, verifiquei, com grande alegria, que o acidente não fora tão grave quanto tinha pensado e que Carlos Lopes, embora ainda um pouco queixoso, não perdera a confiança de recuperar totalmente.
Como na UCLA não havia condições para o treino dos maratonistas e nas estradas ainda era pior do que na segunda circular de Lisboa, o Carlos e a Teresa aceitaram o convite da Nike para se alojarem num hotel em Santa Mónica, juntando-se a outros atletas que eram patrocinados pela mesma marca. Ali, com quilómetros de estrada junto à praia, onde o tráfego de automóveis era proibido, tínhamos o local ideal para o treino. Como eu tinha motorista, deslocava-me a Santa Mónica para acompanhar o treino no alcatrão. Quando o treino era na pista, o Lopes vinha à Universidade (UCLA) no mesmo transporte.
Tudo correu da melhor maneira e a disposição do Carlos, completamente refeito do atropelamento ocorrido em Lisboa, revelava grande confiança e serenidade.»

FC: «Vamos então para a maratona.»

MP: «Quando chegámos ao local da partida para a corrida da maratona, situado numa pista a cerca de três dezenas de quilómetros de Los Angeles, enquanto eu e a Teresa estávamos nervosíssimos, o Carlos mantinha-se calmo e confiante. Metidos num autocarro muito velho e com a telefonia avariada, ficámos muito tempo sem saber nada do que se estava a passar na corrida e, só quando chegámos perto do Estádio Olímpico, soubemos que o Carlos vinha no grupo que comandava a prova.
Imediatamente entrámos a correr para o estádio e, assim, pudemos através do quadro electrónico, seguir os últimos quilómetros da jogos olímpicos, que já só tinha na frente, a comandá-la, três atletas: o irlandês John Tracy, o inglês Charles Speeding e o nosso Carlos Lopes, que manifestava grande frescura física. Foi então que, ao quilómetro 35, o português lançou um ataque demolidor e, percorrendo a légua seguinte no inacreditável tempo de 14.33 s, “despediu-se” dos seus companheiros de fuga para terminar a corrida com 200 metros de avanço sobre o irlandês e o inglês, que disputaram ao sprint a medalha de prata. Carlos Lopes acabara de conquistar a primeira medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, percorrendo a maratona em 2 h 9 m 21 s, tempo que constituiu novo recorde olímpico e que, até hoje, passados vinte anos, ainda não foi batido!!!

Classificação final:
1.º Carlos Lopes, POR, 2h.09,21s;
2.° John Tracy, IRL, 2h.09,56s;
3.º Charles Speeding, GB, 2h.09,58s;
4.° Takeshi, JAP, 2h.10,55s;
5.° R. De Castela, AUS, 2h.11,09s;
6.° Juha J. Kangaa, TAN, 2h.11,10s;
7.° Joseph Nzau, KEN, 2h.11,28s;
8.° Djama Robleh, DJI, 2h.11,39s.»

FC: «Mas que emoção, Mário! Que alegria também! Gostava de ter assistido a tudo isso para poder agora descrever com pormenores a vossa reacção.»

MP: «Como não tenho dotes de escritor para descrever essa emoção, só posso dizer que, quando a bandeira portuguesa subiu no mastro de honra, ao som do hino nacional, chorei que nem uma Madalena…
Era um sonho que ambicionava realizar, mas que não julgava possível, quando iniciei a minha carreira de treinador no Sporting, em 1945.
Também não posso deixar de agradecer as palavras que Lopes dirigiu ao jornalista Carlos Miranda, quando este o entrevistou, depois dos Jogos. No jornal A Bola, de 16 de Agosto, nessa entrevista li o seguinte:
“Qual o contributo de Moniz Pereira?” E a resposta: “Estou também muito satisfeito por ele. O professor merecia esta medalha. Devemos-lhe o grande impulso que o atletismo sofreu em 1975. Deve-se-lhe o grande salto da modalidade, relativamente ao meio-fundo e fundo.”
Outra grande satisfação que me deu a vitória de Carlos Lopes na maratona olímpica foi ele ter provado que um maratonista não deve deixar de competir em provas de pista e de crosse e, até, que elas são necessárias para a preparação da própria maratona, como eu sempre advoguei. Assim, como já escrevemos antes, ele foi campeão regional, nacional e do mundo, de crosse, e, na pista, bateu os seus recordes pessoais de 5 mil e 10 mil metros e, até, o do mundo nesta última distância.
E que fico muito triste e mesmo nervoso, quando oiço atletas portugueses dizer que não podem participar no campeonato do mundo de crosse, ou no campeonato nacional de 5 mil e 10 mil metros de pista, porque estão a treinar para uma maratona…»

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Até sempre, Moniz Pereira!

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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