A magia de Harry Potter num trilho próximo de si, mas longe dos “muggles”

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É possível encontrar o Mundo de Harry Potter no Trail? Sim, é possível, como demonstra Luis Sommer Ribeiro nesta crónica. Muggles, cuidado, a plataforma 9 e 3/4 está aberta e a Magia pronta a ser descoberta. Mas apenas para quem quer…

 

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A minha plataforma 9 e 3/4 é uma qualquer montanha que se vê do carro na autoestrada.

Um muggle pode passar um dia inteiro a olhar para o relevo geográfico e até achá-lo bonito e imponente, mas não percebe a magia…

Já eu…

Não consigo ver um monte sem procurar uma forma de o subir; sem saber que aquela pequena e fina linha que serpenteia encosta acima é muito mais do que um percurso do ponto A, ao ponto B de baixo para cima ou de cima para baixo.

Eu não tenho cicatriz em forma de relâmpago na testa, nem uso óculos. Se usasse capa e varinha, nem sequer seria Gryffindor, seria Hufflepuff, mas reconheço que faço parte de um grupo que vê as coisas de outra forma.

Um grupo que aproveita toda a magia de uma parte da natureza que está à vista de todos, mas só uns é que a vêem, de facto.

As quatro escolas de Hogwarts estão também patentes no mundo da corrida nacional e eu conheço-as a todas.

Tal como na casa Slytherin, há quem defenda as tradições e o espírito do trail, quem defenda que apenas o trail levará à grandeza, os puristas da modalidade, contra bastões e meias de compressão.

Os de Ravenclaw, que não dão ponto sem nó. Tudo leva a querer que a fundadora desta casa vem da Escócia, o que vem bem a calhar, tendo em conta a modalidade que falamos. São conhecidos pela sua inteligência e perspicácia, sabem estudar provas e sabem em quais entrar e quais passar.

Claro que o mágico mundo de montanha vibra com a coragem e audácia de Gryffindor. A magia está em quem encara, com a mesma leveza de quem voa, 50, 100 ou 300 km em autonomia. É de Gryffindor que nascem as lendas e as lendas nunca morrem…

Em último lugar, vem a malta como eu. Os Hufflepuff!

A incrível Helga Hufflepuff, depois de tanta selecção e correcção, feita pelas outras casas, simplesmente declarou: “Eu fico com os que sobram e trato-os a todos como iguais”.

O elemento desta casa é terra, não o ar nem o fogo ou a água, o que se adequa bem à magia da montanha.

Podemos não ter leões, águias ou serpentes no símbolo, mas temos um honrado texugo.

Os Hufflepuff acreditam no trabalho árduo, na dedicação, na honestidade e na generosidade. Não se recusam a qualquer prato de comida, não fosse o fantasma o Frei Gordo…

O melhor de saber deste segredo de magia é a nossa interação com os muggles. Parecem todos os Dursley…

Ainda ontem estava a treinar em Monsanto com um amigo para fazer a ligação entre dois trilhos. Corremos um bocado no passeio ao lado de uma estrada e logo um carro que passou começou a buzinar e uma pessoa pôs-se fora da janela a gozar connosco. Há uns anos teria ficado irritado com isto. Ontem achei graça.

Vejamos, estava um fim de tarde lindo, fui com um amigo aproveitar a luz a desaparecer e dar uma simpática corrida na minha casa. Entre subidas e descidas que conheço ao milímetro, fomos sendo brindados com alguns planos espetaculares de um pôr-do-sol como só a montanha sabe dar.

Quando o carro passou estávamos quase a começar uma das minhas subidas preferidas, íamos tranquilos, à conversa e a rir. Ainda assim, para os tipos do carro, pareceu impossível que nos estivéssemos a divertir. Os muggles simplesmente não entendem a magia…

Este fim-de-semana fui parar ao meio dos muggles e, além de falarem de quem corre, como se fala de quem voa numa vassoura, não lhes cabia na cabeça o porquê da corrida.

“Porque gosto” não parece ser uma resposta suficiente para justificar as horas que dedico à montanha.

Então, vou tentar fazer isto como se tivesse vestido um chapéu mágico que me diz quem sou e a quem pertenço.

Desde que descobri a corrida de montanha descobri um mundo novo. Ou melhor, descobri o mundo. Geograficamente, conheci o país e logo à beira de minha casa. Passei a conhecer cada canto e recanto de Monsanto, por onde passei 5 anos, sem parar, a caminho da faculdade.

O que era apenas alcatrão é agora uma tela de histórias e aventuras, de amigos, de alegria, de amigos, de bons e maus momentos.

O que o chapéu mágico me diria é que é na montanha, arredado de algumas coisas consideradas básicas para a maioria das pessoas, que eu me sinto completo. Os amigos que fiz, e faço, as paisagens, os cheiros, o frio os sons e os silêncios.

Agora, cada vez que olho para uma fotografia de uma qualquer montanha, ela não está parada. Está, como as do mundo mágico de Harry Potter, em movimento. Tem vida porque eu sei onde e como vivê-la. Olho e não vejo apenas o nevoeiro, vejo a luz a aparecer, lá ao fundo; vejo a descida aos pés e já sinto o frio que virá quando passar junto ao rio lá em baixo. Também a sensação de receber o vento fresco enquanto furamos a bruma.

Eu vejo uma fotografia e mais do que me imaginar na montanha, eu fico na montanha…

Bom! Talvez agora, quando me perguntarem porque corro, como não vão perceber qualquer resposta, eu passe só a dizer:

“Magia!”

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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