A importância de disputar uma prova para a nossa progressão

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Esta segunda-feira começamos «A Semana de “Mulheres que Correm – Tudo o que precisa de saber sobre Running”», livro da espanhola Cristina Mitre, um autêntico e imprescindível Manual de Corrida dedicada ao público feminino, mas não só, pelo contrário. A editora Planeta oferece aos leitores do site CORREDORES ANÓNIMOS excertos da obra. O tema de hoje, um de vários que podemos encontrar na obra, aborda a importância da competição para a nossa progressão.

 

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Desde o primeiro dia em que comecei a correr que sabia que devia inscrever-me numa corrida. Competir era a única coisa que me motivava a correr, naqueles dias em que não treinamos o corpo, mas a nossa força de vontade. Porém, ouvi dizer mais de uma vez: «Não quero entrar numa corrida, porque não sou competitiva.» Pessoalmente, acho um conceito errado. O desafio está em nós e não no outro. Talvez isso se deva a que o sentido de competitividade numa mulher é muito diferente do de um homem, porque, por natureza, costumamos ser mais cautelosas. Ao contrário deles. É pouco provável que uma mulher que não correu nem 5 km pense fazer uma maratona (embora exista e conheço uma). Depois de correr 5 km, muitas mulheres desejariam poder correr oito antes de pensarem em dez mil para poder fazê-lo.
Eu sei bem: não corro «contra», mas «com». O exemplo mais claro vejo-o nas corridas que faço com a minha amiga Clara; competimos juntas, não nos confrontamos. Isto não quer dizer que baixe o pistão para me adaptar ao seu ritmo, se vejo que sou capaz de ir mais depressa. Quanto estou sob o arco de partida com Clara, dizemos sempre o mesmo uma à outra: «Não esperes por mim, faz a tua corrida.» E assim é. Tem havido corridas em que não lhe chego aos calcanhares e outras em que fui eu que marquei o ritmo. E, embora ela chegue à meta antes (o que acontece a maior parte das vezes), embora me ganhe, posso jurar com a mão no coração que nunca me senti mal. Estou feliz porque cada uma atingiu o seu objectivo e porque, se a minha amiga não fosse à minha frente ou ao meu lado, teria sido difícil arranjar motivação para continuar a correr. Ela incentiva-me a ir mais longe. Correr com uma amiga é como um presente, porque sei que graças a ela vou dar o melhor de mim. É uma oportunidade para me esforçar. Se não fosse atrás delas, é provável que não tivesse força para continuar a esforçar-me. Não há dúvida de que correr nos ensina muito sobre nós próprias, mas, sobretudo, a ultrapassar as nossas limitações.

mulheresque corremLembro-me que o ano passado, na Corrida de Paracuellos de Jarama (Madrid), havia muito poucas mulheres. Clara ia em terceira posição e eu em quarta (se éramos nós que íamos à frente podem imaginar que os estrogénios escasseavam naquele dia). A verdade é que Clara levava-me, talvez, uns segundos de avanço, ia mesmo à minha frente, a poucos metros, mas não conseguia chegar ao seu avanço (quando corremos, por vezes, os segundos parecem horas e os metros quilómetros) e o público (muito dele amigos) não parava de dizer-me: «Vá! Já conseguiste, vais alcançá-la.» Agradecia-lhes sinceramente os incentivos, mas a certa altura, com o pouco fôlego que me restava, só consegui dizer-lhes: «Não se preocupem, somos amigas.»

Não encare as corridas com desconfiança, pois propormo-nos um desafio é a única forma de ir melhorando e, sobretudo, de não desistir. Se não soubesse que dentro de dois meses vou enfrentar uma distância, dificilmente arranjaria forças para ir correr, porque há sempre algo mais tentador. Podem proporcionar-nos também experiências mais gratificantes.

Quando comecei a correr jamais teria imaginado que poderia atrever-me a inscrever-me numa meia maratona, precisamente no regresso de férias, em plena rentrée, mas fi-lo e foi, sem dúvida, uma das melhores experiências da minha curta vida como runner. Durante uma viagem de imprensa a Estocolmo, gente da Nike falou-me de uma meia maratona em Londres, Run To The Beat (corre ao ritmo), 21 km amenizados por vários DJ. Aquilo pareceu-me um excelente plano, uma corrida com a melhor música pelas ruas londrinas. Já tinha corrido uma meia maratona em Paris e outra em São Francisco, por isso, parecia-me uma boa oportunidade para descobrir como era o ambiente runner em Inglaterra. Além disso, a prova partia de Greenwich, de onde parte também a maratona de Londres, por isso, podia obter uma boa perspectiva antes do meu próprio desafio. Ofereciam-nos os dorsais, por isso, levei apenas uns minutos a gizar um plano. Liguei a Clara por FaceTime e disse-lhe: «Não me podes dizer que não. Vamos juntas a Londres. Ofereço-te a viagem.» Dito isto, Clara organizou a logística em sua casa e juntou-se ao plano.

Acho muito difícil treinar no Verão. O calor mata-me e madrugar em férias para ir correr não é, muitas vezes, o mais apetecível, sobretudo depois de uma noitada. Mas o desafio estava em cima da mesa: a 9 de Setembro teríamos uma meta de 21,95 km. Clara em Fuengirola e eu em Gijón conseguimos fazer coincidir treinos e séries para chegarmos a Setembro na melhor forma possível. O nosso objectivo era o habitual «vamos desfrutar e terminá-la», e já é bom se o conseguirmos.

O melhor de tudo era o fim-de-semana para running girls com uma escapada de shopping incluída. Escolhemos um hotel não muito longe da partida da meia maratona («não muito longe» para a capital britânica é a 40 minutos com várias mudanças de metro e comboio) que tinha a sua própria cozinha, onde podíamos, por isso, mago bastante delicado e poder preparar o meu pequeno-almoço antes de correr é fundamental para não acabar a prova à procura de uma casa de banho com urgência.

No sábado o plano era fazer um pouco de treino cruzado, umas séries, umas pistas pelo Soho, Oxford Street e Covent Garden, a comprar coletes e camisolas na Uniqlo e whey protein (proteína de soro de leite) na Whole Foods. A nossa shopping bag é ecléctica. Após doze horas a deambular pelo centro voltámos ao hotel e demos umas boas gargalhadas ao tentarmos organizar as respectivas malas de viagem.

Se fôssemos detidas no controlo de bagagem, o guarda não iria acreditar. Parecia que íamos fazer contrabando: sementes de chia, cereais de espelta crocante, aveia ecológica, selos e papéis comprados nos armazéns Liberty & Co, uma ou outra T-shirt e muita bijutaria absurda que nem sabíamos quando iríamos usá-la, mas que no momento nos parecia muito cool.

Na manhã seguinte, às 7 horas a pé. Começava o ritual que antecede a corrida. Clara, que é a rainha do Spotify, tinha uma lista pronta para nos motivar ao máximo. Como somos previdentes, no dia anterior tínhamos calculado o tempo que levaríamos a chegar à partida da prova. Por isso, arranjámo-nos sem pressa.

Estava um dia esplêndido, com um sol radiante e ligeiramente fresco. Podíamos correr de equipamento curto, sem problema. Saímos do comboio e dirigimo-nos ao parque. A primeira surpresa logo ao chegarmos: vimos o cartaz da última milha numa senhora
rampa que se prolongava por quase 2 km. Depois de irmos buscar os dorsais, fizemos rapidamente o chichi do medo e toca a fazer o aquecimento. Com os nossos dorsais, podíamos colocar-nos no primeiro pelotão da prova, um luxo. A surpresa foi imensa quando um membro da organização se aproximou de nós e nos perguntou se nos importávamos de nos colocarmos mesmo debaixo do arco da partida para que houvesse mais raparigas. Of course not (Claro que não), respondemos em uníssono. Foi assim, sem saber muito bem, que duas espanholas seguravam a fita de partida de uma meia maratona em Londres.

Naquele momento não podia deixar de pensar que nesta vida tudo é possível. Quem pensaria quatro anos antes que um dia iria à cabeça de uma meia maratona, ainda que fosse apenas por uns metros. Quando deram o tiro de partida desatámos a correr como se tivéssemos o diabo no corpo, levávamos 19 000 corredores atrás de nós e à nossa frente tínhamos câmaras a focar-nos. Acho que fiz os 300 metros mais rápidos da minha vida e depois de passarmos as câmaras disse a Clara: «Ou reduzimos o ritmo ou morremos nos 21 km que ainda temos pela frente.»

Tenho a certeza de que naquele 9 de Setembro fizemos a corrida da nossa vida, não tanto pela marca, mas pelas sensações tão incríveis que experimentámos. Fomos a um ritmo muito cómodo, desfrutando da paisagem, ouvindo os comentários de outros runners, saudando os espectadores como se fôssemos da realeza, batendo nas palmas das mãos dos meninos que nos incentivavam pelo caminho.

Os últimos 2 km foram os mais sofridos, mas já sabíamos e estávamos preparadas. Clara tinha até a receita para não desfalecer:

«Esbraceja ao máximo e eleva os joelhos.»

Cruzámos a meta em 1 hora e 44 minutos, de mão dada e com os braços erguidos.

Não existe fotografia da nossa chegada, mas também não preciso dela, porque dificilmente esquecerei o abraço que demos e a sensação de plenitude que tive ao passar a meta. Só por momentos como este, todos esses dias de dúvidas e o esforço terão valido a pena. Durante os 21 km só conseguia pensar nas surpresas e nas alegrias que este desporto me deu. Sei que, uma vez calçadas as «asas», tudo é possível.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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