A exaustão quase tira Luís Duarte da Ronda dels Cims

luisduarte

O quarto dia d´«A SEMANA DA RONDA DELS CIMS» mostra a dificuldade da prova. Luís Duarte passa por momentos realmente complicados. Obrigado a se deitar devido a exaustão durante um troço, é ignorado por um atleta, que chega a rir da sua situação. Mas, no trail, o companheirismo continua a ser a palavra de ordem e o português lá recuperou com o apoio de todos, inclusive de outros atletas. 

 

Se gostou deste artigo, seja nosso amigo e partilhe pelos seus amigos no Facebook

 

Sigo sonolento por um trilho húmido e sempre junto a uma linha d’água. Sinto-me extremamente lento. Tive medo de tomar café pois não queria ter refluxo do estômago ou vomitar mais uma vez. Por um vale bastante agradável, passo por imensos cavalos.

Já a chegar a Cabana dels Espavers passo por algumas vacas, que se assustam comigo. Progrido lentamente pelo vale e não tenho sinais de outros atletas. Na parte final do vale, tenho de enfrentar uma “parede” pela frente: num quilómetro, subo cerca de 320 metros. Inicialmente suave, mas acabando com inclinações não acessíveis a qualquer pessoa, lá chego a Portella Blanca, a 2517 metros, e onde se situam as fronteiras de França, Espanha e Andorra. Passo por quatro pessoas do ponto de controlo e prossigo em direcção a um lago enorme onde se encontrava um pescador, que acena. Retribuo o gesto…

Mais uma subida inclinada até o Coll des Isards, a cerca de 2700 metros. Consigo ver uma série de picos mais altos e também Pas de la Casa. Parece próximo… Passo por uma série de placas de gelo e por um grande amontoado de rochedos sem qualquer trilho até chegar às pistas de esqui. Desço por elas, mas o ritmo é fraco. Passo junto a um lago onde está muita gente. Entro num estradão largo até a zona urbana, com a marcação indicada por umas setas florescentes no chão. No asfalto faço próximo de um quilómetro até ao abastecimento. Apesar do cansaço, fico feliz por ver o Trindade, que já estava à minha espera há algum tempo.

Chego às 10h30 e concluo que demorei três horas e meia desde Illa (km 116) até Pas de la Casa (km 130). De qualquer modo, pergunto rapidamente onde é a casa de banho, pois já vinha algo aflito… O Trindade indica-me e eu peço-lhe para colocar sais nos flasks, já que o calor está a aumentar. Vindo do WC tiro as sapatilhas e os pés estão um pouco “amassados”. Um enfermeiro aconselha chamar uma pedologista francesa antes de calçar as “Sense PRO”. Deito-me numa marquesa e aguardo a chegada da especialista. Lá nos entendemos e digo onde mais dói. Ela lava o pé com soro, dá-me uma massagem e coloca Betadine com uma seringa numas pequenas bolhas. Depois chega-me um creme espesso e pergunta-me pelas meias secas. O Trindade vai buscar e entrega-lhe. Ela coloca então as meias sobre o creme e tenta calçar as sapatilhas. Eu desço da marquesa e calço-me.

luisduarte12Entretanto, chega o Ivan todo “roto” e diz-me que não sabe se vai continuar devido a desidratação, além de estar mal dos quadricípites. Eu vou comer qualquer coisa, pois já estou bem do estômago. Ingiro um bocado de pão liso e um iogurte. Coloco uma barra na mochila. Não tenho a certeza, mas penso que também comi uma gelatina. Preparo-me para arrancar quando chega outro atleta. O Trindade dá-me um boné, os dados das variações de desnível e distâncias até Inlcés e faço-me ao trilho: “Até já Trindade!!!”

Entro num trilho bem marcado e vou-me afastando de Pas de la Casa. A descida é muito fácil e agradável. Chegado ao ponto mais baixo começo a subir em direcção a Pas des Vaques. É uma parede que começa com 1900m de altitude e vai até próximo dos 2600m em poucos quilómetros. Não temos trilhos a seguir e temos que enfrentar os tufos da vegetação bastante densa. A densidade esconde alguns marcos florescentes espalhados junto a uma grande linha de água. Tento concentrar-me! Estou a suar imenso, pois a zona é bastante fechada e não corre nenhuma corrente de ar. Começo a beber demasiado no início da subida e fico rapidamente saturado do sabor dos sais dos meus flasks.

O facto de estar a enjoar o sabor dos sais leva-me a beber várias vezes na linha de água. Começo a ficar bastante exausto e a irregularidade não me ajuda. Entretanto, já fui passado por dois atletas. Chego a um estradão e sou obrigado a seguir nele durante uns 500 metros quase planos. Tento correr, mas estou a ficar exausto e saturado do calor. Saio do estradão e entro num trilho bastante inclinado, que cada vez é mais difícil. Por várias vezes sou obrigado a parar e coloco o peso do meu corpo em cima dos bastões. Prossigo mais um pouco, mas estou completamente exausto e a boca fica “colada”. Deito-me um pouco de costas no chão, a arfar. Um atleta passa por mim mas nem me dirige a palavra. Ainda parece rir da minha cara… Psicologicamente, vou abaixo!

Demoro imenso a vencer uns 50 metros quase verticais até que paro num controlo feito por uns simpáticos franceses. Pergunto se têm água, mas dizem ter pouca e que é a reserva deles para uma série de horas que têm pela frente. Dizem que o abastecimento está próximo, mas a verdade é que demorei quase duas horas e meia para lá chegar! Vou andando e passam por mim, num trilho plano ao longo de uma crista, a Nerea Martinez e o Ivan. A Nerea fica um bocado alarmada comigo e pára, pois eu ia a caminhar em zig-zag. Oferece-me água e comida, mas eu rejeito e digo-lhe para seguir. Depois desta zona plana entramos numa descida muito técnica até aos lagos Estany del Siscaró. Demoro imenso, nem caminhar consigo. Passa mais um atleta…

Ao chegar mais próximo de Inclés, o Trindade vem ao meu encontro, pois a Nerea tinha avisado no abastecimento que eu seguia muito mal e talvez fosse melhor alguém me ir ajudar. O Trindade dá-me ânimo, mas estou mal e vejo a minha chegada a Ordino muito distante. Tenho a tentação de ficar por aquele abastecimento, mas todos dizem para ter calma, pois ainda faltam imensas horas para terminar o tempo de prova. Tento comer, mas não consigo. Falo português com um voluntário que está no abastecimento, pois pertence a Cruz Vermelha de Andorra. Excelente pessoa, tal como o Trindade, faz de tudo para eu recuperar e seguir até a meta. Os dois sugerem que faça uma massagem. Resolvi seguir os conselhos, podia ser que conseguisse recuperar o apetite e também a vontade de me hidratar. A massagem foi excelente, os voluntários estiveram constantemente a animar o ambiente mas, mesmo assim, não me senti capaz de prosseguir.

Entretanto, chega o João Colaço. Vem a meu encontro e dá-me bastante ânimo: “Luís, temos de chegar a Ordino! Vamos embora, toca a animar!” Pouco depois de ele arrancar, eu levanto-me e vou beber água simples. O Trindade diz-me para dormir uma hora para ajudar a recuperar. Ele e o rapaz da Cruz Vermelha preparam uma maca no chão e deito-me. Cobrem-me com um cobertor e, simplesmente, desligo…

“Duarte, acorda! Vamos, tens de ir até Ordino”, sussurra o Trindade. “Claro! Siga!”, respondo. Aquela hora de sono permite-me recuperar a parte psicológica, que, neste momento, é bem mais importante para acabar do que a parte física. Levanto-me da maca e visto os calções que tinha tirado para fazer a massagem.

Vou até ao abastecimento. O Trindade fala com os nossos amigos Joana e Nelson Graça, pois não tem a certeza do que será melhor para mim para aguentar as duas duras subidas que ainda faltam. Com muito custo, engulo um pão com presunto e bebo uma taça de água com sal, além de dois quadrados de chocolate, um pouco de melancia e “Total Whey” de Capuccino.

Após meia hora a dormir, visto o impermeável, coloco a mochila e dou um forte abraço ao Trindade. “Agora é até Sorteny. Não sei quanto tempo vou demorar, mas podes ter a certeza que chego lá!” Arranco e os voluntários do abastecimento fazem-me uma ovação como se fosse o vencedor da prova. Vou animado e recuperado.

perfil2012ronda
Clique na foto para conhecer em pormenor a altimetria da prova

LEIA TAMBÉM:

Luís Duarte entre o sono e os vómitos na Ronda dels Cims

Ronda dels Cims: continuar a correr mesmo sem a referência do “mestre” Armando Teixeira

Corra a Ronda dels Cims com Luís Duarte

 

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos