Os clichés da corrida para responder a velha pergunta: «Mas porque estarei eu a fazer isto?»

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No terceiro dia d´«A Semana de “Correr com a Matilha”», livro editado pela Lua de Papel, Mark Rowlands olha para os clichés da corrida quando somos questionados com a seguinte pergunta: «Mas porque estarei eu a fazer isto?». Não é devido a fé, ao trabalho e ao otimismo, como defende a visão muito própria acerca da corrida dos norte-americanos. E a resposta «Porque gosto!» também não serve de justificação…

 

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Mas porque estarei eu a fazer isto? É difícil responder a esta pergunta e, para não tentar fazê-lo, recorro, com satisfação, a clichés. Posso responder: “Porque gosto.” Num certo sentido da palavra, eu gostei do treino – enquanto durou – e estou a gostar da ansiedade causada por estes minutos que antecedem a corrida. Estou a gostar da sensação de perceber que talvez tenha mais olhos que barriga; estou a gostar da incerteza – de não saber o que vai acontecer a seguir. Num certo sentido do que significa “gostar”, até sou capaz de gostar do que vai acontecer a seguir. Assim sendo, há um pouco de verdade ao responder “porque gosto”.

Mas não se trata de uma intensidade particularmente iluminadora, não é um fundo de verdade que acrescente compreensão, mas que apenas dá azo a mais uma pergunta: por que razão gosto eu destas coisas? E poderia acrescentar: estou quase com cinquenta anos e, se não fizer isto agora, nunca mais o farei. Seria uma vergonha nunca na vida ter corrido uma maratona. Tenho a certeza de que este é um dos motivos, mas não deixa de ser uma resposta típica, vulnerável, tal como a resposta original. Afinal, por que razão haveria eu de achar que seria uma vergonha nunca na vida ter corrido uma maratona? Acho que os verdadeiros motivos já são tão difíceis de identificar, quanto mais de explicar. Mas é um facto sociológico interessante que (a) muitas pessoas tenham opinião formada sobre os meus motivos, e que (b) o conteúdo destas opiniões dependa de onde – e mais especificamente, de que lado do Atlântico – essas pessoas vivem.

Penso que os norte-americanos têm uma visão muito própria acerca da corrida e, consequentemente, acerca do que faço hoje em dia. Os livros que os americanos escrevem acerca da corrida têm, quase sempre, temas comuns. Ao dizer isto não quero de modo algum desvalorizá-los. Já li bastantes – desde o inspirador «O Homem da Ultra- -Maratona», de Dean Karnaze, ao surpreendente «Nascidos Para Correr», de Christopher McDougall, e ao envolvente «Why We Run», de Bernd Heinrich (que considerarei sempre um americano honorário, já que viveu a maior parte da vida nos EUA), entre muitos outros.

Mas, mesmo nestes livros estupendos, os temas comuns são evidentes, e é isso que os torna intrinsecamente americanos. Um dos temas é o inabalável otimismo pioneiro. Nós somos capazes de fazer coisas extraordinárias. Todos temos esta capacidade. Cada dia que passa, podemos ser melhores do que no anterior; e não há nada que supere a nossa vontade, se nos dedicarmos a ela. Claro que este tipo de otimismo é o mantra semi-ubíquo da vida americana. Adoro esta crença e acredito que grande parte da população americana a declara com sinceridade e comoção. O único problema é que tenho a certeza de que não é verdade. A maior parte das coisas está fora do alcance da vontade das pessoas. E a verdade inabalável da vida é a de que tendemos a piorar. Talvez pudéssemos fazer coisas extraordinárias. Talvez ainda possamos fazê-las. Talvez até tenhamos conseguido correr uma ultramaratona indescritível e brutal, em tempos – Badwater, Leadville, a Marathon des Sables, ou algo do género. Não sei. Mas sei que tendemos a piorar. Se somos capazes de fazer coisas extraordinárias, chegará o tempo em que deixaremos de conseguir fazê-las.

matilhaOutro tema recorrente é o da ênfase na fé. A fé é o que dá alento nos momentos mais negros e inevitáveis que enfrentamos durante a corrida. A fé, escusado será dizer, é o pilar da vida americana. A fé fortalece-nos; quando temos fé, damos o nosso melhor. Mas eu – um europeu de alma assombrada, escondido entre o bando dos iniciados – suspeito que é quando perdemos a fé que damos o nosso melhor. Na verdade, esta foi, sem dúvida, a mensagem do meu primeiro livro, «O Filósofo e o Lobo». A perda da fé é, precisamente, uma oportunidade de nos tornarmos ainda mais fortes. No fim de contas, acredito que a única atitude que poderemos vir a suportar na vida e que, de facto, vale alguma coisa, é o desafio.

Não que isso acabe por marcar a diferença, claro: para nós vai acabar mal, façamos o que fizermos –, caso contrário, o nosso desafio não faria sentido. Em comparação com os resultados de vendas entusiasmantes, na Europa e noutras partes do mundo, as vendas da edição norte-americana de «O Filósofo e o Lobo» andaram, creio que será acertado dizer, a “passo de caracol” – uma expressão que será, decerto, aplicável a qualquer eventual progresso que eu faça na corrida de hoje. Não tenho fé nenhuma em conseguir chegar ao fim da corrida, ou sequer em chegar muito longe – e, para mim, este é um dos fatores que me atrai. Qual o sentido de tentar alguma coisa se soubermos, ou se tivermos fortes suspeitas – quer seja pela fé, quer por outros motivos – de que seremos bem-sucedidos? Na verdade, acho precisamente que a suspeita de não ter esperança nenhuma de ganhar é o que mais me motiva hoje.

Por fim, os livros americanos sobre corrida enfatizam o valor positivo do trabalho. Podem-se distinguir duas correntes nesta ideia. Uns parecem pensar que o trabalho é inerentemente enobrecedor. Outros relacionam o valor do trabalho com os sonhos que este lhes permite alcançar (ver a primeira corrente de “otimismo”). Mas o meu espírito sombrio de europeu diz-me que o trabalho não é de todo enobrecedor: trabalhar quando não é preciso é indício de estupidez e não de enobrecimento. E não há provas de qualquer relação fidedigna entre esforço e realização de sonhos.

Cá para mim, nada de bom vem do trabalho. Na melhor das hipóteses, correr é uma forma de entretenimento e não de trabalho. Esta foi uma das coisas que aprendi ao correr. Otimismo, fé e trabalho: não quero nada disto.

Aparentemente, sou um pessimista sem fé, que encara o esforço como algo inútil. É estranho que me tenham dado um visto permanente de residência.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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