«Os campeões em Portugal não são bem aproveitados»

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Devido a problemas técnicos não foi possível publicar na passada sexta-feira o último dia d´«A Semana do VI Congresso Internacional de Corrida», que apresenta a mesa redonda que reuniu Carlos Lopes, Rui Silva e Sara Moreira. Três nomes de sempre do desporto nacional e mundial, três nomes que abordaram vários temas, entre os quais como correm mais rápido que os outros…

 

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O presidente da Federação Portuguesa de Atletismo ressaltou antes da mesa redonda que Carlos Lopes tinha «aberto a porta» para outros medalhistas devido aos seus feitos, «mas não só no atletismo». Jorge Vieira sublinhou que o atleta olímpico «abriu uma nova era no desporto português, principalmente por fazer crer que era possível vencer». Não só Carlos Lopes, referiu Jorge Vieira, mas também Fernando Mamede, Rosa Mota e Moniz Pereira, como treinador, por exemplo.

«O Rui Silva e a Sara Moreira são descendentes dessa geração, aproveitaram muito bem a porta aberta e continuaram com a senda de sucessos. Não podemos esquecer que a federação representa os únicos campeões olímpicos do desporto nacional e, das medalhas olímpicas de Portugal, cerca da metade são do atletismo. Estes três atletas são os exemplos perfeitos do desporto português».

Agradecido pelas palavras, Carlos Lopes procurou responder à pergunta do dirigente, que também foi secundada pelo moderador Norberto Lopes: «Como conseguia correr tão rápido?»

«Há perguntas que não têm resposta. Mas aprendi a ser prático e objetivo. De acordo com as minhas convicções, o ditado de que “o importante é participar” sempre me deixou doente. Eu queria participar para ganhar! Tudo o que fazia era definido com esse fim. Sempre procurei correr o mais rápido que conseguia. Nos treinos, por exemplo, comecei a marcar pontos específicos por onde passava. Todos os dias procurava superar o meu melhor registo. Nas pistas procurava sempre aprender com os meus adversários. Fui para a maratona porque queria ser campeão olímpico, sentia essa capacidade e necessidade de ser campeão olímpico. Dava-me um prazer enorme correr com os melhores.»

Carlos Lopes recordou na mesa redonda o seu início, quando foi para o atletismo por brincadeira, mas que se transformou em algo sério quando foi para o Sporting, clube do seu ídolo Manuel de Oliveira, que o viu correr em Viseu. «Fiquei extasiado com a sua simplicidade. Aquilo mexeu comigo», recordou Lopes, que admitiu que nunca gostou de perder e que isso foi fundamental para a sua carreira, assim como a persistência, a paciência, a coragem «e o acreditar em nós próprios, que podemos ser mais rápidos».

A fé em si própria é algo que também tem Sara Moreira, que mostrou gratidão por estar entre dois atletas que ganharam a medalha olímpica. « É algo com que sonho todos os dias», confessou a atleta, que começou a correr aos nove anos com o habitual corta-mato escolar e depois foi convidada para correr num clube da sua terra. «O meu único objetivo na altura era não perder para os rapazes. Sempre fui muito competitiva e ainda sou, às vezes até demais», confessa. Fernanda Ribeiro acabou por a despertar para a modalidade. «Queria fazer como ela, dar a volta à pista com a bandeira do meu país.» Foi esse desejo que a fez começar a encarar a modalidade com outros olhos. «Quando queremos muito, quando acreditamos em nós e trabalhamos ao máximo, é possível ganhar.»

Já Rui Silva revelou que o futebol foi a sua primeira paixão, mas, devido à morte do pai e à mudança de residência, acabou por entrar para o atletismo, por mero acaso. «Fui acompanhar os meus colegas a uma prova. Como faltou um corredor para completar a estafeta, acabei por correr com calças e sapatos». Carlos Lopes e Rosa Mota foram as suas referências na altura, mas foi Pedro Barbosa quem o resgatou em definitivo para o atletismo: foi «o responsável por me ter puxado para as distâncias mais curtas».

Durante a sua carreira, o medalha de bronze em Atenas 2004 nos 1500 metros salientou principalmente a sua frieza em perceber as suas reais capacidades. «Fui sempre ambicioso, mas bastante realista.» E é com essa posição de vida que reconhece que não conseguirá terminar a sua carreira desportiva como desejava: a disputar a maratona dos Jogos Olímpicos do Rio, no próximo ano.
«Já fiz tentativas suficientes e não é esse o caminho, não quero terminar a minha carreira numa cadeira de rodas, mas a correr.»

Rui Silva fez questão de salientar que pretende colocar um ponto final na sua trajetória de forma digna, «alcançar o melhor resultado possível sem caminhos paralelos. Saber que dei o meu máximo, que alcancei o melhor resultado que o meu corpo permitiu, sem trafulhices. A verdade é que havia coisas difíceis de explicar no pelotão da elite e felizmente a verdade está a vir ao de cima. O desporto tem mais significado quando assim é», afirmou.

Rui Silva recordou ainda a sua medalha de bronze nos Jogos de Atenas 2004. Confessou que a sua incrível arrancada nos últimos 500 metros estava mais do que programada, que sempre soube que teria de lutar pela última posição do pódio, pois dificilmente conseguiria alcançar os dois primeiros lugares, «a não ser que a prova tivesse sido mais lenta», o que acabou por não acontecer.

O português disse ainda que a sua carreira foi feita muito de “arrancadas” devido ao seu corpo, «já que não tinha uma estrutura física para aguentar os empurrões e as cotoveladas do meio do pelotão. Por isso fui obrigado a controlar os meus adversários a partir de trás», como aconteceu nos Jogos Olímpicos de 2004.

«Para muitos foi uma estratégia errada, que deveria ter atacado mais cedo, mas, se calhar, de outro modo não conseguiria a de bronze, mas uma medalha de latão. Isto tudo é um jogo. Eu jogo, mas também os meus rivais. É verdade que faltaram dez metros para a medalha de prata, mas dez metros numa corrida é muito. Uma coisa é vermos do lado de fora, outra é estar lá dentro.»

Rui Silva referiu que foi sempre muito calculista e, como tal, se uma estratégia estava delineada, era para cumprir. «A luta era comigo próprio. Delineava a estratégia e muitas vezes era preciso sangue vivo para a seguir. Temos de jogar com o coração e a mente. Muitas vezes dei-me bem, noutras, não foi como o esperado.»

Uma opinião partilhada por Sara Moreira, que reconhece que as provas exigem uma enorme capacidade dos atletas. «As corridas estão cada vez mais rápidas. Até na maratona ganha-se hoje ao sprint. Felizmente trabalhei sempre a parte final, pois é preciso ter velocidade hoje em dia», referiu a quarta colocada na recente Maratona de Nova Iorque, que considera que se trabalha mal em Portugal. «Principalmente trabalha-se quantidade em vez de qualidade. É preciso trabalhar a estratégia e a parte final.»

Questionados pela assistência sobre o aproveitamento das suas imagens para inspirar as novas gerações de portugueses, todos concordaram que são mal aproveitadas, principalmente a de Carlos Lopes.

«Os campeões em Portugal não são bem aproveitados. Faltam valores à nossa sociedade e os miúdos crescem sem eles. Eu cresci com a Fernanda Ribeiro, por exemplo. Os professores não são motivados para falarem dos campeões nas escolas, não são aproveitados os exemplos. O que é destacado são as casas dos segredos, os reality shows, etc.», opinou Sara Moreira.

Declarações secundadas por Rui Silva, que acrescentou ainda que o povo português dá mais valor aos feitos estrangeiros do que aos nacionais, enquanto Carlos Lopes procurou desvalorizar o tema, embora tenha reconhecido que muito mais poderia ser feito. «Mas nunca virei a cara à luta», concluiu um dos símbolos do desporto nacional e mundial.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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