O primeiro passo da corrida… e das nossas vidas

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O primeiro passo… Quem corre sabe a angústia e as incertezas que assolam qualquer corredor antes do primeiro passo, a expetativa que há antes de darmos o primeiro passo. «Ao dar este primeiro passo, compreendo que, aconteça o que acontecer hoje, independentemente de onde eu consiga chegar, deveria estar aqui», refere Mark Rowlands. Este é o quarto dia d´«A Semana de “Correr com a Matilha”», livro editado pela Lua de Papel.
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Na corrida de fundo, experiencia-se um certo tipo de liberdade – a liberdade de despender algum tempo com a mente. Também na corrida de fundo há um certo tipo de conhecimento: um tipo de conhecimento que em tempos fez parte da cadência dos dias de uma vida ainda jovem. Este é o conhecimento do valor, daquilo que é importante na vida e daquilo que não é. A experiência da liberdade que encontro na corrida de fundo não é a experiência de fazer aquilo que me apetece. Não é a liberdade implícita na ausência de restrições. Pelo contrário, uma das coisas que a corrida de fundo me ensina é precisamente o meu distanciamento da liberdade neste sentido. Há, no entanto, outro tipo de liberdade: uma liberdade que tem que ver com o saber, uma liberdade que acompanha a ausência da dúvida.

Acabaram-se os discursos. Agora, ouve-se o tiro e nós… não vamos a lado nenhum. Estamos entre os dez mil de trás e demoramos quase dez minutos a passar a linha de partida. Um senhor mais velho, todo animado, que tem estado ao pé de mim na zona G, e que me disse que o seu objetivo era fazer duas horas – só depois percebi que ele só ia fazer a meia maratona –, tira o blusão do fato de treino e lança-o para trás por cima da cabeça, para o meio da multidão. Vira-se para ver o resultado da sua ação e desata a rir-se quando vê, à fraca luz dos candeeiros de rua, a confusão da pessoa em que o casaco foi aterrar. Então é assim que nos mantemos quentes: trazemos roupa que não temos intenções de voltar a ver – talvez no ano seguinte. Está toda a gente a vaiar, a gritar, a ganir e até a fazer aquela voz de quem canta à tirolesa.

matilhaComeçamos a avançar. Há um certo arrastar dos pés, que lentamente, quase impercetivelmente, se transforma numa corrida desordenada. A determinada altura, não sei bem quando, vamos ver o que podemos considerar como o meu primeiro passo na minha primeira maratona. Ora bem – avanço com o pé esquerdo e, ao fazê-lo, dou comigo a pensar: já está. Começou. É a magia dos primeiros passos.

Antes deste passo, aparentemente, estava calmo, mas por dentro, cheio de incertezas: psicologicamente, contorcia-me e debatia-me com a confusão e a incerteza. Será que o meu gémeo vai aguentar? Serei capaz de percorrer a distância? Será doloroso? Humilhante?

Mas com aquele primeiro passo, todas as minhas dúvidas desapareceram e deram lugar a uma firmeza tranquila. Segundo Descartes, e uma tradição por ele instigada, saber alguma coisa é ter certeza sobre ela, não ter dúvidas. Por vezes, dizemos “não ter dúvidas”, e eu creio existir uma grande verdade nesta expressão. A liberdade e o conhecimento estão intimamente entrelaçados. A certeza tranquila e calma que sinto ao dar o primeiro passo é a forma experiencial de certo tipo de conhecimento. Se eu fosse mais influenciado por Spinoza, tal como era enquanto jovem (e quando éramos jovens, quem não era influenciado por Spinoza?), talvez me sentisse tentado a descrever esta compreensão como o conhecimento sobre aquilo que as coisas têm de ser, ou devem ser.

Mas isto não estaria bem correto. Mesmo dando este passo, sei perfeitamente que as coisas não tinham de ser assim. A minha certeza consiste em compreender como as coisas deveriam ser e não como têm de ser. Mas “dever” é um termo de valor: um termo que prescreve e não que descreve.

A experiência de como as coisas deveriam ser é uma experiência de valor: uma experiência daquilo que é importante e, correlativamente, implícito na experiência, uma compreensão do que não é importante. Quando o terror, a dúvida e a indecisão se transformam em calma, tranquilidade, certeza, isso é algo que está alicerçado numa experiência de valor.

Ao dar este primeiro passo, compreendo que, aconteça o que acontecer hoje, independentemente de onde eu consiga chegar, deveria estar aqui. Estou a fazer o que devia fazer. A experiência de liberdade que sinto na corrida de fundo é, de facto, a experiência de um tipo de valor que outrora conheci, mas do qual me esqueci. Correr é o exemplo vivo da apreensão deste valor. O primeiro passo está dado.

A corrida de fundo vai começar. Espero eu.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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