João Correia: «É normal termos em Portugal provas onde o perigo está mesmo ali…»

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«A Semana do VI Congresso Internacional de Corrida» continua com o Trail, o mais recente membro da família do atletismo. Organizador da Ultra de São Mamede, João Correia salientou que os corredores exigem a presença cada vez maior do perigo, algo que merece alguma reflexão por parte de todos. Nota também para a ligação entre a fadiga e a melhoria da nossa performance, teoricamente dois elementos opostos que, afinal, devem estar mais próximos do que o imaginado.

 

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Como era de esperar, o congresso também abriu um espaço para o Trail, talvez a modalidade com maior ritmo de crescimento no “atletismo”. João Correia, organizador do Ultra Trail de São Mamede, agradeceu a oportunidade, defendendo que o atletismo «apenas tem a ganhar em acolher o trail na sua enorme família». Também treinador, João Correia resumiu as bases do treino da modalidade: o desenvolvimento do endurance, do VO2máx., a melhoria da técnica de corrida e de progressão, a preparação mental, o trabalho de força, a electroestimulação, proprioceção, alongamentos, sono, noite e altitude.

Um dos fatores destacados pelo orador foi o denominado FDS, fim-de-semana de choque. «O atleta deve replicar as condições da competição. É um fim-de-semana de grandes cargas em termos de quantidades, com o intuito de trabalhar a endurance específica do Ultra Trail, como a resistência das fibras musculares e a prevenção de desordens gastro-intestinais, assim como diminuir o custo energético da corrida.» As caraterísticas principais desse “FDS choque” são as seguintes:

  • FDS prolongado (2-3 dias, excecionalmente quatro);
  • 5 a 10 horas de progressão em montanha;
  • Tentar replicar as condições da competição alvo;
  • Melhor em grupo homogéneo;
  • Mínimo dois, máximo seis por ano;
  • Importante: recuperação completa após o evento (3 a 4 dias de repouso completo, seguido de cruzado).  

 João Correia fez questão de salientar na sua intervenção que o atleta de Trail é muito especial, já que não gosta muito de seguir as normas: «É muito particular, gosta de ser livre, não gosta de seguir um plano de treino específico.» O organizador do Ultra Trail de São Mamede revelou também que o elevado número de competições a que os atletas se sujeitam semanalmente «é um dos grandes debates do momento».

«Pessoalmente, acho um erro, o atleta deve descansar entre provas. Na minha opinião, cerca de oito semanas», defendeu João Correia. O especialista entende que é possível e benéfico conciliar a corrida e o Trail, mas não se o objetivo for alcançar grandes resultados, «já que aí é necessário um treino específico para cada modalidade». No final, um alerta: «Hoje, e devido ao elevado número de provas, os organizadores procuram oferecer cada vez mais provas duras e, por vezes, perigosas. Eu não concordo com esta tomada de posição, mas é uma tendência nacional e internacional. É normal termos em Portugal provas onde o perigo está mesmo ali…»

«PARA HAVER EVOLUÇÃO, É NECESSÁRIO HAVER FADIGA»

Professor universitário, Francisco Alves talvez tenha feito a intervenção “menos feliz” do congresso. A verdade é que o tema proposto, «Modelos quantitativos para o treino: Impulso de treino», foi dirigido a um público muito específico, o que acabou por retirar algum brilho da sua exposição ao “corredor comum” ou ao simples curioso do tema, já que, para se entender os termos utilizados e os gráficos mostrados, era necessário ter alguma bagagem académica na área. Resumidamente, o professor demonstrou que, para haver evolução, é necessário haver fadiga, evitando, no entanto e evidentemente, o sobretreino. «O ideal é trabalharmos na sobrecarga e na sobressolicitação. Em termos teóricos, o atleta deve frequentar estas zonas se deseja evoluir.»

Em resumo, o congresso comprovou mais uma vez que a aposta recente da Federação Portuguesa de Atletismo é uma aposta mais do que justificada, já que as inovações e o aparecimento de novas tendências são cada vez mais rápidas e, como tal, é obrigatório refletirmos sobre quais os caminhos que a corrida tende a assumir.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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