«Correr com a Matilha» de mão dada com um Filósofo

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“O que é correr?”, questiona Mark Rowlands no livro «Correr com a Matilha», edição da Lua de Papel. Durante hoje e os próximos quatro dias iremos abordar o tema, com o autor a encontrar na corrida os passos para entender a vida. É «A Semana de “Correr com a Matilha”».

 

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«O que é correr? Quando um ser humano corre – no sentido recreativo, a razão pela qual milhões de pessoas correm –, que interpretação podemos fazer de tal facto? Podemos pensar que a resposta depende de cada pessoa. Cada pessoa tem os seus motivos para correr: uns porque gostam, outros porque se sentem bem, ou porque ficam com melhor aparência, ou porque lhes dá saúde e os faz sentir felizes, ou mesmo vivos. Uns correm pela companhia, outros para aliviar o stresse do dia a dia. Alguns gostam de se pôr à prova, de testar os limites; outros gostam de comparar os seus limites com os de outras pessoas. Parece óbvio que o motivo pelo qual as pessoas correm varia de pessoa para pessoa, pois tudo se resume às diferentes motivações de cada um.

No entanto, é do senso comum pensar que correr tem um sentido, um significado não só para cada indivíduo, mas para o ser humano em geral. Há quem pense que esse significado provém do papel que a corrida desempenhou ao longo da nossa evolução e, logo, naquilo que somos hoje em dia. Alguns acham, e talvez tenham razão, que somos simiescos e que nascemos para correr – formatados ao longo de milhões de anos por mutações casuais e transformações naturais para sermos macacos que correm. Corríamos para caçar e poder comer animais, e não apenas plantas. E, tal como afirmou, entre outros, o antropólogo Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, o aumento de proteínas na nossa alimentação teve pelo menos alguma influência no desenvolvimento significativo do nosso cérebro.

Talvez não tenha sido a força motora desta “cefalização”, mas sem o aumento de proteínas, tal não teria sido possível. Por outras palavras, correr eliminou um obstáculo importante ao nosso desenvolvimento enquanto espécie. Houve até quem estabelecesse uma relação mais próxima entre a corrida dos nossos antepassados e as nossas impressionantes capacidades cognitivas contemporâneas. A estratégia de caça dos nossos antepassados baseava-se não na velocidade, mas na resistência – na capacidade de perseguir um único animal, mesmo que ele pertencesse a uma enorme manada, seguindo-o por quilómetros e quilómetros, pressionando-o e forçando-o a correr até acabar por morrer de hipertermia. Bernd Heinrich, biólogo na Universidade de Vermont, defendeu que essa necessidade de perseguir apenas um animal, excluindo todos os outros, sem lhe perder o rasto, fazendo uma investida durante horas, ou até dias, terá contribuído para o desenvolvimento de todas as nossas capacidades cognitivas.

Penso que estas histórias, tal como muitas que contamos acerca de nós próprios, são muito importantes não pelo que contam, mas pelo que mostram. Quando digo isto, não quero dizer que as histórias sejam necessariamente falsas. Pelo contrário, penso que contêm importantes elementos verdadeiros. Mas um elemento verdadeiro que se confunda com toda a verdade é, por vezes, pior do que uma mentira. As teorias evolucionárias atribuídas ao significado da corrida tentam ajudar a justificar a utilidade que a corrida tem para a espécie Homo sapiens. Não há nada de mal nisto: as teorias evolucionárias são mesmo assim. Mas aqui implícito – e é isto que as histórias demonstram – está a atribuição de um determinado valor à corrida. Correr tem valor pelo que implica. Correr tem valor devido a outras coisas que nos trouxe.

A atribuição deste tipo de valor é reiterada a nível individual, quando se explica o significado da corrida através das razões pelas quais as pessoas correm. Presume-se que correm porque isso lhes traz vantagens, de uma maneira ou de outra. Os filósofos referem muitas vezes este valor que provém da utilidade como um valor ‘instrumental’.

Uma coisa tem valor instrumental quando se assemelha ao valor de um instrumento – como meio para atingir um fim. O dinheiro tem valor instrumental: que se traduz no valor das coisas que se podem comprar. A medicina tem valor instrumental: um valor que advém do valor da saúde, que nos pode restabelecer. Quando existe valor apenas instrumental, não existe um valor inerente – é um valor que se encontra sempre noutra coisa qualquer. Essa outra coisa é o verdadeiro centro nevrálgico do valor.

Correr tem valor instrumental. Mas o erro implícito nas duas teorias sobre a corrida, a individual e a evolucionária – um erro talvez grave o suficiente, a ponto de ser considerado uma mentira histórica monstruosa –, consiste em supor que este é o único valor da corrida.

Não é. Nem sequer é o valor principal.

Em certos aspetos vivemos numa época monstruosa. Esta maneira instrumentalista de encarar a corrida é um reflexo da época utilitária e limitada em que crescemos: uma época em que tudo tem de ter alguma utilidade – tem de “servir para alguma coisa”. No seu ensaio inspirador, chamado “A Questão da Tecnologia”, Martin Heidegger, talvez o maior filósofo do século xx, defende que na época moderna existe aquilo a que chamou Gestell – um “enquadramento”. Ou seja, a era moderna tem uma maneira de encarar ou compreender o mundo que nos rodeia e, como tal, exclui outras visões. A era moderna não é exclusiva neste aspeto: todas as épocas do ser humano têm a sua Gestell característica. A característica da era moderna é uma Gestell com uma forma singularmente instrumental ou utilitária. Na Gestell do mundo moderno tudo se reduz a um recurso, seja ele qual for. Vemos e compreendemos as coisas apenas em relação à sua utilidade – de um modo geral, tendo em conta apenas aquilo que podem fazer por nós, seja para o bem ou para o mal – e somos mesmo incapazes de compreender que possam ter outro valor para além desse. Até a natureza é descrita como um aglomerado de recursos naturais. Heidegger, com a sua propensão para a ingramaticalidade, descreveu esta tendencial instrumentalização moderna do pensamento como um “escurecimento do mundo”. A realidade, em si mesma, é explicada em termos tecnológicos muito redutores.

Talvez seja excessivo afirmar que nos tenhamos tornado incapazes de atribuir ao valor outro significado que não o de utilidade, devido às normas instituídas. Mas é realmente difícil. Decerto, é assim que se justifica normalmente a atividade de correr, para nós e para os outros. Uma pessoa diz que corre para ficar mais saudável, para emagrecer, para relaxar, ou para se sentir viva. A suposição implícita nestas justificações é a de que, se correr for uma maneira legítima de passar tempo, então “deve servir para alguma coisa”, ou seja, deve, de alguma maneira, ser útil. Para nós é difícil compreender que a corrida tenha um valor independente, que não se baseie apenas naquilo que pode fazer por nós – um valor que não seja entendido como instrumental.

Digo-o por experiência própria. Tive de enfrentar muitos dias, na verdade, décadas de confusão, até conseguir entender isto.

Neste livro farei bastantes descrições da experiência de correr – conduzindo, como os filósofos gostam de lhe chamar, uma investigação “fenomenológica”. Não o farei só por fazer, ou apenas porque me dá gozo – na verdade, até considero esta uma tarefa difícil e exigente, por vezes até cansativa. Vou fazê-lo porque é uma experiência de um tipo de valor bastante diferente – um valor que não é instrumental, que não é uma função de utilidade. Neste valor podemos distinguir, pelo menos em termos gerais, uma coisa que é importante na vida.

Neste livro vou defender uma posição que muitos, creio que a maior parte, vão achar estranha. É verdade que a corrida tem variadas formas de valor instrumental. No entanto, na sua essência e no seu melhor, a corrida tem um tipo de valor totalmente diferente. É por vezes conhecido pelo valor “intrínseco” ou inerente. Dizer que algo tem valor intrínseco é dizer que algo tem valor por si só e não devido a qualquer outra coisa que possamos conseguir ou ter. Vou defender que a corrida é intrinsecamente valiosa. Assim, quando corremos, fazemo-lo pelo motivo certo, aquele que está em contacto com o valor intrínseco da vida. Isto tem uma importância muito maior do que apenas conhecer a essência da corrida – aquilo que significa, realmente, correr. Ao viver na escuridão do mundo, as nossas vidas são marcadas pela incapacidade de reconhecermos o valor intrínseco quando o encontramos.

matilhaVivemos as nossas vidas a fazer coisas por causa de outras, o que, por sua vez, acontece em função de outras coisas. Três anos cheios de resultados e dez, ou vinte, de coisas que fazemos em função de outras: décadas a perseguir o que é valioso, mas sem quase nunca o encontrar. Estar em contacto com uma coisa que vale por si só, e não em função de outra coisa qualquer, seria o fim desta perseguição, pelo menos durante algum tempo. Pelo menos durante algum tempo, uma pessoa não persegue o valor, está mergulhado nele.

Por vezes, as pessoas perguntam qual o significado desta vida – afinal de contas, é isto que os filósofos devem fazer, apesar de poucos o fazerem. A pergunta, infelizmente, é formulada relativamente a dois aspetos. Primeiro, a palavra ‘significado’ tem sugerido a algumas pessoas que o tipo de resposta que procuramos é, de certo modo, mística, daquelas que só um guru nos pode dar. Em segundo lugar, o uso do artigo definido sugere que a pergunta tem apenas uma resposta – uma espécie de bala existencial mágica que nos dirá sem equívocos o que é a vida. Mas, na realidade, a pergunta é muito mais comum e menos ambiciosa: uma pergunta que todos nós nos fazemos a determinada altura. O que é importante na vida? Ou, de outra maneira: o que é valioso na vida? Ou: que devo estimar na vida? Ou, se assumirmos que o modo como vivemos é o reflexo das coisas a que damos valor: como deverei viver? As respostas místicas para estas perguntas servem de pouco: uma resposta só será útil se puder ser compreendida e, podendo ser compreendida, deixa de ser mística. Além do mais, não há motivos para supor que estas perguntas só têm uma resposta.

Vou defender que correr é uma maneira de compreender o que é realmente importante na vida. É uma maneira de nos pormos em contacto com o valor intrínseco, tal como ele se revela, ou se manifesta, na vida humana. Correr não é, de todo, a única forma de o fazer. Mas é uma das formas e, como tal, é uma das formas de responder à pergunta sobre o significado da vida, a única razoável – por mais mundana e pouco ambiciosa que o possa ser. A resposta a esta pergunta, pelo menos para mim, é sempre delicada e está sempre a mudar. É algo que só compreendo nalguns momentos e que, depois, desaparece. Mas esses podem ser os momentos mais importantes da minha vida.

Acima de tudo, tentarei convencê-los de que existe um tipo de conhecimento na corrida. Quando corro, sei o que importa na vida – embora, durante muitos anos, não tivesse a noção de que o sabia. Não é um conhecimento que tenha adquirido recentemente, mas sim um conhecimento que recuperei. Quando era jovem, também sabia o que era importante na vida. Acho que todos nós sabíamos, embora não tivéssemos a noção de que sabíamos. Mas isto foi algo de que me esqueci quando comecei o grande jogo do crescimento e da formação de adulto. De facto, foi algo que tive de esquecer para poder jogar este jogo. Uma das grandes ironias da vida é o facto de aqueles que menos têm de compreender o significado da mesma serem aqueles que melhor e mais facilmente a compreendem. Nas corridas de fundo, consigo ouvir o murmúrio de uma infância que não posso recuperar e de um lar ao qual não poderei voltar. Nestes murmúrios, nos rumores e sussurros da corrida de fundo, há momentos em que percebo, mais uma vez, o que em tempos sabia.

Os pensamentos assentam numa página impressa, mas ecoam pela vida – os ecos de uma campainha que soa lentamente à distância.

Mas em vez de reproduzir apenas o seu repique, o eco é sempre subtilmente transformado: é sempre transformado porque a vida está em constante movimento. É o efeito Doppler do pensamento como ocorre na vida; a mutação do pensamento que é vivido e não meramente pensado. Aos poucos, comecei a perceber que um livro sobre corrida tem de ter a estrutura da corrida; caso contrário, os pensamentos que o compõem não se encaixam e, portanto, não farão sentido. A corrida é uma atividade indiferenciada. Cada movimento – cada passo da corrida de fundo, cada movimento de braços – flui no seguinte. Os pensamentos que compõem este livro são assim. Fluem uns nos outros, nunca são constantes, nem estáveis, estão sempre a mudar, à medida que a corrida avança.

A separação por capítulos é, em certa medida, nominal. Estão organizados referindo-se a corridas, episódios discretos da minha vida, e da vida da matilha que corria comigo, mas os pensamentos que animam estas corridas confluem. Da perspetiva dos pensamentos, senão da vida, cada capítulo começa onde o anterior acabou – embora as corridas que descrevem possam estar separadas por muitos anos.

As ideias que eu julgava ter deixado para trás, na poeira dos quilómetros percorridos, insistem em reaparecer com novas formas. Qual é a lógica? As ideias continuam lá, mas não são tão evidentes quanto as pernas e os braços que conduzem a corrida como se fossem sinais a dar indicações. O livro não se desenrola como um argumento lógico, com premissas que de forma eficiente, clara e decisiva levam a conclusões. Pelo contrário, este livro é o registo de alguém que se esforça por correr – lenta e dolorosamente, como acontece na maior parte das minhas corridas – em direção a uma conclusão. Acabarei por chegar lá. Mas, nesta corrida, há muitos becos sem saída, não há atalhos.

Por vezes, até as estradas que vão ter a algum lado tiveram de ser percorridas mais do que uma vez, vezes sem conta, até eu perceber aonde me levavam. Lamento, por vezes, parecer repetitivo. Na verdade, os percursos mudam ligeiramente, quer a sua paisagem, quer o destino, e essa é umas das suas características mais importantes. No fim, a corrida acaba por nos levar sempre de volta a casa, de volta ao início. Mas, por vezes, se corrermos uma distância suficientemente longa, essa casa ter-se-á transformado. O fim deste livro é também o seu início. Mas se o livro funcionar, esse início terá sofrido uma alteração.

Às vezes, penso que a corrida é um local para onde canalizo a minha história. A corrida é o local onde me posiciono, aos ombros dos gigantes – ou melhor, onde corro, dentro do turbilhão de pensadores mais velhos e melhores do que eu –, um local onde as coisas que eu já li, e pelos vistos esqueci, as coisas que há muito estão enterradas, os anos com trivialidades da vida e uma vida de trivialidades, mais uma vez, tiveram o seu momento no palco da consciência, pavoneando-se amuadas, repisando: porque te esqueceste de nós? Neste palco onde entram e saem, mudando tudo ou nada, eu não tenho nada a dizer.

A corrida é uma ocasião em que eu recordo. E mais importante, não é uma ocasião em que me lembro das coisas dos outros, mas de coisas que em tempos, há muito tempo, eu soube, mas as quais fui forçado a esquecer no processo de crescimento e na minha formação de adulto.

Eu já sabia disto, mas não tinha consciência; isto acontece com toda a gente. A corrida é um local para recordar. É nesse local que encontramos o significado da corrida.»

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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