Carla André: «Correr mais rápido numa prova de 24 horas não implica ganhar»

carlaandre24

Depois da Marathon des Sables em abril, uma prova de 24 Horas para “relaxar” em junho. Carla André venceu a recente «24 Run Wiltz» (quinta da geral), no Luxemburgo. «Considero estas provas um bom treino psicológico e por isso gosto da ideia de as introduzir no meu calendário», refere a atleta ao CORREDORES ANÓNIMOS.

 

Não se esqueça de fazer um LIKE e partilhar a nossa página. Obrigado! 

 

Carla André refere que teve conhecimento da «24 Run Wiltz» através de um amigo, Tun Mestre, residente no Luxemburgo e que também correria a prova. O seu intuito foi «correr sempre a um ritmo confortável para poder resistir o maior tempo possível», por isso a vitória foi uma consequência mais do que um objetivo.

«Corri 150,6 km. Sinceramente, não defini nenhuma meta, dado que, em Portugal, num percurso plano, corri 145 km. A prova em Luxemburgo foi de extrema dificuldade devido a introdução de uma elevadíssima altimetria e escadas. Não poderia prever as minhas reações de cansaço a essas dificuldades. Apenas sabia que iria entregar todas as minhas forças para efetuar um bom resultado pessoal, seja ele qual fosse. Não previa sinceramente a classificação final.»

Carla André confessa que o período mais complicado da corrida foi o período noturno, já que há menos apoio nas ruas, «embora haja». Altura em que surge «um segundo inimigo: o sono».

«Devemos ter em atenção à qualidade do sono nos dias anteriores para não irmos em défice de sono. A música que há durante a prova ajuda, além da ingestão de produtos com cafeína, géis ou café. Mas, se for possível, é importante uma pequena sesta antes da prova, faz milagres a este nível! Consegui dormir cerca de duas horas na tarde antes da prova e por isso não tive dificuldades de maior a nível de sono.»

E como é a logística de uma prova de 24 Horas?

«A prova iniciou às 20h de sexta-feira e terminou, evidentemente, no sábado à mesma hora. Os atletas têm dois pontos de apoio, com abastecimentos permanentes de líquidos e sólidos. Normalmente, cada atleta e equipas instalam um ponto de apoio próprio, onde colocam roupas para mudar, alimentação, etc. Pode haver todo e qualquer apoio, como tendas, caravanas ou carrinhas. Podemos dormir ou não durante o período que decorre a prova. Há dois locais de controlo de passagem por chip em cada ponto do percurso, no sentido de evitar qualquer falseamento de resultados e acompanhar o número de voltas. Existe ainda uma tenda onde os atletas, em tempo real, podem acompanhar os seus resultados, mas também dos outros atletas. Durante as 24 horas, o competidor tem de realizar no mínimo uma volta para se classificar, ou seja, não há limite de voltas. Aliás, o limite é a resistência do próprio competidor, tanto a nível físico como psicológico.»

Evidentemente, a gestão do cansaço é um dos segredos de uma prova com estas caraterísticas, mais do que a velocidade. «Correr mais rápido não implica ganhar», refere Carla André. «O mais importante é a resistência e constância». A portuguesa revela que não dormiu, que fez a prova maioritariamente a correr, «à exceção da parte final, em que o cansaço e as dores eram extremas». Mas mesmo assim ultrapassou os seus limites e conseguiu terminar em primeiro lugar, superando inclusive a monotonia, algo normal em provas destas caraterísticas, com os percursos a serem bastante curtos (por exemplo, cerca de 1400 metros no Luxemburgo). Monotonia que é ultrapassada pela relação existente entre os atletas.

carla andre«Há uma enorme filosofia de existir contacto entre todos os atletas. A parte que considero muito interessante é que, no mesmo espaço, corremos com atletas de topo, mas também com aqueles que pretendem apenas se divertir. O convívio é muito importante porque permite o permanente apoio e entreajuda. Por exemplo, corri os últimos quilómetros com o campeão da prova de 2014 e o deste ano. Mas é impossível evitar a monotonia, pelo que entra aqui o trabalho psicológico: a capacidade para distrair a mente, focalizar em outros pensamentos, estabelecer metas parciais de distância… Nunca devemos olhar para o horizonte das 24 horas.»

Carla André refere que é habitual correr provas de 24 horas por ser um bom treino psicológico, uma oportunidade para correr «um número bem elevado de quilómetros com uma logística extremamente simples».

«São interessantes para quem gosta, como eu, de correr na sua forma mais pura, em qualquer terreno e espaço, além de podermos experimentar desafios diferentes.»

No entanto, obviamente, é necessário um treino específico para aguentar este tipo de competições:

«Não fiz treino específico para esta prova dado que terminei o último desafio há muito pouco tempo, em abril. Mas o mais importante será sempre aumentar a volumetria de quilómetros e efetuar treinos longos em circuitos pequenos. Devemos treinar mais a resistência do que a velocidade. O ideal é realizar treinos longos em circuito. Por exemplo, um dos treinos que efetuei para a prova das 24h em Portugal, em 2014, foram 37 km num circuito de 600m, no Estádio Universitário. Comemorava nesse dia 37 anos e resolvi ‘casar’ os anos com a distância…»

Além da preparação, é necessário também fazer uma gestão lúcida da corrida em si, salienta a portuguesa:

«Deve-se ter muita atenção à gestão do esforço, já que temos de apresentar um ritmo que devemos manter durante muito tempo. Há muitos atletas que correm inicialmente a um ritmo elevado, tendo de parar depois para recuperar, retomando mais tarde. No meu entender, as paragens não são positivas, dado que os músculos ‘bloqueiam’, dificultando o retomar ao mesmo ritmo. Por esse motivo não fiz paragens superiores a 2/3 minutos durante a prova. É evidente que, no final, as dificuldades já serão muito grandes e os ritmos reduzem, mas, se formos constantes, tiramos um maior proveito. Devemos dar ainda muita atenção à hidratação e alimentação. Qualquer erro a esse nível hipoteca a prova e, por isso, a ingestão muito regular de líquidos e alimentação é essencial, evitando ao máximo a ingestão de alimentos muito pesados e de difícil digestão.»

Correr cerca de 150 quilómetros em 24 horas. Um desafio realmente marcante na carreira de qualquer atleta. Embora não o principal…

«O meu maior desafio foi a Marathon des Sables, em abril, uma experiência de corrida em autossuficiência, vivida em pleno deserto do Sahara. A próxima loucura ainda está em estudo, sendo que permanece no segredo dos Deuses face à sua dimensão e exigências logísticas e financeiras.»

Mas antes há outras “mini-loucuras” a cumprir. E certamente teremos em breve mais notícias desta “louca” portuguesa chamada Carla André…

* leia amanhã, terça-feira, dia 23 de junho, entrevista com o terceiro colocado da prova, o português Marco Neves

LEIA TAMBÉM:
PASSATEMPO: ganhe livros «VONTADE DE FERRO» de Pedro Castro

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos