A religião e o prazer segundo a corrida

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No último dia d´«A Semana de “Correr com a Matilha”», livro editado pela Lua de Papel, Mark Rowlands aborda a paixão e o divertimento pela corrida, mas também a religião. «O prazer de correr não constitui o objetivo externo que motiva a corrida. É uma parte fundamental da atividade de correr», defende o autor.

 

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Se jogarmos cada um dos pontos a seu tempo, ou se fizermos cada entrega por si só, estamos a fazer somente o jogo. Mas quando o valor de cada ponto ou entrega se torna instrumental, o que estamos a fazer é trabalhar. Uma corrida não é diferenciada nem estruturada desta maneira. Não tem partes tão percetíveis. Existe a passada individual, o balançar dos braços, mas tudo se articula. Assim, uma corrida tem o mesmo estatuto que um segmento individual num jogo bastante estruturado. Na melhor das hipóteses, é algo que se justifica por si só; é divertimento, não é trabalho. Mesmo quando é feito por outros motivos, a sua natureza básica como divertimento acaba por se reafirmar.

Vivemos numa era minuciosamente instrumental, e a ideia de que algo é feito por si só é bastante difícil de aceitar. Nada se faz só por fazer – tudo é feito a pensar noutra coisa qualquer. Até os jogos, pensamos nós, têm de ter um propósito instrumental. Sempre nos disseram que, quando os animais brincam, o fazem para adquirir certas aptidões – predatórias, evasivas – que lhes serão úteis mais tarde. O mesmo acontece com as crianças – as suas brincadeiras são importantes para todo o seu processo de ‘socialização’. A mensagem é, em ambos os casos, a mesma: o divertimento não é propriamente divertimento, é trabalho.

Claro que não quero negar que o que parece divertimento possa, na verdade, ser trabalho. Ao mesmo tempo, coisas que parecem trabalho podem ser divertimento. A diferença entre o divertimento e o trabalho não está no que se faz, mas no motivo por que se faz. Tal como disse Schlick: “A ação humana é trabalho, não porque dá frutos, mas somente quando advém e é comandada pela ideia de que dará frutos.”

Do mesmo modo, a ação é divertimento quando acontece simplesmente pela concretização da ação. O facto de a ação ter ou não outras consequências benéficas é irrelevante para o facto de ser entendida como divertimento. Por isso, mesmo que isto assim seja, que a função do divertimento seja preparar-nos de alguma maneira para mais tarde, o divertimento não deixa de o ser, desde que façamos o que fazemos apenas porque queremos.

Será que a ideia de divertir por divertir faz sentido? Se eu corro porque quero correr, então é porque gosto de correr. Mas assim, a satisfação, o prazer que a corrida me dá, iria parecer o objetivo externo da corrida. E afinal parece que as minhas corridas contam como forma de trabalho. Mas esta conclusão seria prematura. O prazer de correr faz parte do que é correr. Não existe prazer no abstrato. Existe sim esta ou aquela forma de prazer. Comparemos o prazer de correr com o prazer de jogar xadrez; o prazer do sexo com o prazer de ganhar. Não existe um tipo geral – o prazer em geral, o prazer sem ser específico – que todas estas coisas partilhem. Existe apenas o prazer de correr, o prazer de jogar xadrez, o prazer do sexo e o prazer de ganhar. Correr não é apenas uma atividade física – colocar um pé à frente do outro, até que uma certa distância seja percorrida. É também uma atividade mental. O prazer de correr não constitui o objetivo externo que motiva a corrida. É uma parte fundamental da atividade de correr.

Isto é ocultado pela palavra ‘prazer’ – uma palavra particularmente inútil e dissimulada. Na maior parte das vezes, o prazer é entendido como um sentimento agradável. Já que o mesmo sentimento pode, em princípio, ser manifestado de diferentes maneiras – um comprimido especialmente concebido para o efeito poderia, por exemplo, induzir os requisitos das sensações de prazer – isto poderia levar-nos a pensar que o prazer de correr lhes é intrínseco. Se o prazer é apenas isso, sensações agradáveis, então acho que o prazer está ligado às corridas apenas superficialmente: a vida mental da corrida não pode ser entendida desta maneira. Já tentei perceber a essência desta vida mental em termos da ideia do batimento cardíaco da corrida – o local dos pensamentos dançantes. Não há comprimidos que nos levem a este local. O batimento cardíaco da corrida é intrínseco à corrida. Talvez seja verdade que eu corro para me perder no batimento cardíaco da corrida. Mas esta é apenas mais uma maneira de dizer que eu corro só por correr.

Em relação ao caráter periférico do prazer, a corrida e a escrita são atividades da mesma família. Escrever não é um jogo: não há um objetivo pré-luúdico em relação ao qual eu tenha uma atitude lúdica.

Mas, tal como Suits salientou, nem todo o divertimento implica praticar um jogo. Escrever pode ser uma forma de divertimento; mas também uma forma de trabalho. Tudo depende do motivo por que o fazemos. Se eu escrever por obrigação – por exemplo, porque tenho um contrato – então o que escrevo é trabalho. Mas não é nestas alturas que escrevo melhor. A altura em que escrevo melhor é quando as ideias simplesmente me fluem na cabeça e eu nem sei bem que ideias são e onde me vão levar, mas que me impelem a tentar descobrir.

matilhaEu escrevo porque quero saber em que estou a pensar, e nunca chego bem a saber, a não ser que veja tudo escrito no papel. Eu capto as ideias em forma de palavras, inspeciono-as e avalio-as. Este tipo de divertimento tem um valor próprio e, quando fico envolvido nele, não existe nada no mundo que preferisse estar a fazer. Escrever é brincar com ideias reluzentes, brilhantes e cintilantes. Quando a escrita se transforma em trabalho, estas ideias ficam caladas e adormecidas.

Mas pouco disto, se é que alguma coisa, tem a ver com divertimento, no sentido tradicional do termo. Muitas vezes, é mais como que uma tortura – é como subir aquele monte de Kinsale, a correr.

Correr naquele monte foi um jogo especial – e é muito fácil perceber que este jogo tinha muito pouco a ver com o significado de prazer, no seu sentido convencional. O jogo implicou, não um prazer, mas um sofrimento intenso; e esta tortura não foi aliviada pelos pensamentos dançantes do batimento cardíaco da corrida. Foi um jogo de resistência, para perceber até onde conseguia ir. Sempre corri naquele monte para ver se conseguia – para ver se ainda conseguia fazê-lo no dia seguinte, tal como tinha feito no dia anterior. O objetivo deste jogo era saber se sairia derrotado pelo monte – sabê-lo a todo o custo; era um jogo para saber. Por vezes, um saber deste tipo faz também parte do que é correr.

Comecei as minhas corridas, enquanto adulto, tendo em mente objetivos instrumentais. E em certos dias, consigo correr com esses objetivos em mente. Mas assim que sinto o batimento cardíaco da corrida, quando chego ao sítio dos pensamentos dançantes, estes objetivos há muito que ficaram para trás. Mais uma vez devo agradecer a Schlick por me ajudar a perceber porquê. Schlick escreveu:

“O que transforma o divertimento em trabalho é a alegria da criação pura, a dedicação à atividade, e a absorção do movimento. Tal como sabemos, existe um grande encantamento que causa quase sempre esta transformação – o ritmo. Para ser infalível, só funcionará na perfeição se não for importado deliberadamente para a atividade, e se a sua junção for artificial, mas se evoluir espontaneamente da natureza da ação e da sua forma natural.”

A partir do momento em que o ritmo da corrida faz o seu trabalho hipnótico, quando o batimento cardíaco da corrida surge “espontaneamente da natureza da ação e da sua forma natural”, começo a correr por correr.

Antes disto, na verdade, não estou a correr: estou simplesmente a mexer-me. Este momento em que o movimento se transforma em corrida é o momento em que o trabalho se transforma em divertimento. O meu corpo mexe-se, mas os meus pensamentos divertem-se no local onde a minha mente costumava estar.

Se a corrida é intrinsecamente valiosa, então o batimento cardíaco da corrida seria o seu correlativo experiencial. Experienciar o batimento cardíaco da corrida é experienciar o seu valor intrínseco. O batimento cardíaco da corrida é o valor intrínseco a dar nas vistas, dando-se a conhecer ao mundo: algo que é importante na vida e que se me está a revelar.

Algumas pessoas, no mínimo, acolheram bem a ideia de que a corrida é algo parecido com uma religião, ou com a ideia de que a experiência de correr é parecida com uma experiência de caráter religioso. Mas eu creio que o batimento cardíaco da corrida é a verdadeira antítese da religião ou, pelo menos, de uma das maneiras de encarar a religião. A ideia de religião que tenho em mente é exemplificada por Tolstoy.

Lembro-me de ter lido, há muitos anos, a “Confissão”, de Tolstoy, onde ele descreve de uma maneira sincera, talvez até um pouco melodramática, aquilo que pensa do significado da vida. Quando atingiu determinado momento na sua vida, Tolstoy começou a ser assolado com determinadas questões: “E então?”, “E depois?”, “Porquê?”. Tenho seis mil desyatinas (N. da T.: Unidade de área russa, em desuso) de terra em Samara e trezentos cavalos. E então? Além disso, vou ser mais famoso que Gogol, Pushkin, Shakespeare e Molière. E depois? Por causa disso, vou poder proporcionar uma vida melhor e melhores condições educativas aos meus filhos. Porquê? A incapacidade que Tolstoy tinha em responder a estas perguntas perturbava-o – e muito.

“Se eu não conseguisse responder a estas perguntas, não conseguiria viver.”

Tolstoy explica esta prise de conscience (N. da T.: O despertar da consciência para algo) com uma alegoria.

Um viajante, numa terra oriental, salta para um poço para fugir a uma ‘fera assanhada’. No entanto, no fundo do poço, está um dragão. O viajante vê-se preso entre a fera e o dragão e segura-se a um ramo de um pequeno arbusto que sai de uma fenda na parede. Julgava ele que as coisas não poderiam ficar piores, quando ficaram mesmo. Dois ratos, um preto e um branco, aparecem e começam a mordiscar o ramo. A qualquer momento, o ramo vai partir e o viajante vai cair e morrer. Ele tem consciência disso. No entanto, enquanto ainda ali está agarrado, vê umas gotas de mel nas folhas do arbusto. O viajante tenta chegar ao mel com a língua e lambe as folhas. Tolstoy pensou: o viajante também se agarra veementemente ao ramo que lhe prolonga a vida, sabendo que o dragão da morte o aguarda. Tenta lamber o mel, algo que outrora lhe dava prazer, mas agora já não dá. E os ratos, branco e preto, como o dia e a noite, vão mordiscando a vida à qual ele se agarra. Isto não é uma fábula, reivindicou Tolstoy: é a “verdade autêntica, indiscutível e compreensível”.

A ‘verdade’ em questão parece consistir num determinado tipo de perceção, aliado a uma série de inferências baseadas nesse conhecimento. Pelo menos parte da perceção de Tolstoy consiste na consciência de que vai morrer – não se trata apenas de uma possibilidade abstrata que acabará por se cruzar com ele um dia, mas sim de uma realidade concreta, que se perceciona de um modo muito profundo e não apenas intelectualmente. Resultado: o mel deixa de ser doce. Nada interessa. Já não é apenas a sua morte que o perturba. Mais cedo ou mais tarde, continua ele entusiasticamente, a minha família ficará doente, vai sofrer e morrer, e não haverá nada mais a não ser ‘fedor e vermes’. Além disto, há também a questão do seu trabalho – o seu legado não-biológico. De repente, apercebe-se de que tudo cairá no esquecimento.

Os filósofos medievais usavam uma expressão: sub specie aeternitatis – sob o olhar da eternidade. Na verdade, não precisamos da eternidade, qualquer visão a longo prazo serve. Sob o olhar da eternidade, ou, seja a que ritmo for, sob o olhar de um prazo longo q. b., qualquer vestígio da existência de Tolstoy será apagado. Ele terá desaparecido, bem como qualquer um dos que ele amou, e a sua obra seguirá os seus passos até ao adeus eterno. No que diz respeito ao seu legado artístico, ele saiu-se bem melhor do que qualquer um de nós. Passaram cem anos da sua morte, a sua obra continua a ser lida em todo o lado e recordada com admiração. Mas, ainda assim, quem sabe se assim será daqui a mais umas centenas de anos? Uns milhares de anos e esta probabilidade será ainda maior. Mesmo que a sua obra se prolongue pela humanidade fora, tudo pode mudar num abrir e fechar de olhos, segundo o esquema cósmico das coisas. O desaparecimento é algo com que todos podemos contar, até Tolstoy. Os gregos antigos baseavam-se num conceito a que chamaram ‘imortalidade objetiva’ – a sobrevivência de uma pessoa através da sua obra. Mas, infelizmente, a procrastinação objetiva seria um conceito mais apropriado. Trata-se apenas de adiar o inevitável. E então? E depois? Porquê?

A reação de Tolstoy a tudo isto foi a habitual: procurou consolo na fé, a fé na promessa de uma vida para além desta. A fé é aquilo que nos liga, a nós que não duramos para sempre, ao infinito e ao eterno.

“Independentemente das respostas que a fé nos dê, todas as suas respostas dão à existência finita do homem a sensação do infinito – uma sensação que não é destruída pelo sofrimento, pela privação ou pela morte. Assim sendo, apenas na fé poderíamos encontrar o significado e a possibilidade de uma vida”.

Esta é uma expressão da visão religiosa da vida. Não quero dizer que esta seja a única visão da vida, mas é decerto uma das mais comuns. Segundo esta visão, o valor da vida será obtido na vida seguinte – desde que passemos para o sítio certo. Assim, esta vida tem meramente um valor instrumental. É valiosa no sentido em que nos prepara e nos dá acesso à próxima vida. No batimento cardíaco da corrida, acho que experiencio a antítese desta atitude. Experiencio o valor intrínseco desta vida. A experiência é, portanto, uma afirmação de que há coisas que fazemos nesta vida que são intrinsecamente valiosas.

Acho que Tolstoy está certo. Qualquer explicação satisfatória para o sentido da vida tem de ser capaz de redimir a vida. A vida é horrível segundo os termos que Tolstoy identifica, e creio que também em certos aspetos que ele não refere. Correr pode levar-nos ao valor intrínseco desta vida. Mas o sentido da vida exige mais do que o valor intrínseco. Exige que este valor intrínseco seja suficientemente importante e suficientemente grande para equilibrar – e talvez até superar, em sonhos – o terror da vida. Será que o que tem valor por si só, sem ser por outro motivo qualquer, consegue fazer isto? Poderei encontrar o sentido da vida no valor da vida? Não sei bem. Para fazer isso, tenho de pensar mais no terror da vida. Tenho de reduzir isto aos seus princípios mais básicos. Tenho de identificar a sua essência.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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