A construção de um mito

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Ao olhar para o seu início,Kilian Jornet recorda alguns dos momentos marcantes da sua juventude, quando era um ilustre desconhecido no mundo das corridas. Relembra, por exemplo, um quarto que «parecia mais uma imitação do hotel de The Shining»; ou então de ter levantado com 15 graus negativos; ou da sua participação na emblemática Pierra Menta, onde começou a escrever o seu nome na História da modalidade. Este é o segundo dia d´«A Semana de “Correr ou Morrer”», livro reeditado pela Lua de Papel.  

 

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Na vida, há sempre um dia em que precisamos de decidir que comboio apanhar e, depois de entrarmos nele, não podemos pensar no que aconteceria se tivéssemos apanhado outro. Temos de aproveitar ao máximo tudo o que nos oferece no seu interior. Não conseguimos saber o que há dentro dos outros comboios, mesmo que acordemos durante muitas noites a pensar que eram melhores. Na realidade, a perfeição só existe dentro de nós, naquilo que pensamos que é perfeito. Cada caminho leva-nos a um lugar diferente, mas são os nossos passos que nos farão encontrar mais ou menos lampejos de felicidade
em qualquer dos caminhos.

A decisão está tomada: é aos 18 anos que temos de começar a escolher a vida, escolher um trabalho, uma carreira, uma família, a comida no frigorífico, um carro, uma casa para viver, uma conta no banco, se queremos ou não ter animais, a colcha da cama, os móveis da cozinha, os talheres e os guardanapos, escolher o canal de televisão que queremos ver, o contrato do telemóvel, escolher o que vamos comer ao almoço, como matar o tempo nas tardes de domingo, escolher o futuro, escolher a vida. Não, eu não escolhi isto.

Eu escolhi outra vida.

Vivia num estúdio de 18 metros quadrados no Grand Hotel de Font-Romeu. Vivia com um amigo, embora houvesse sempre mais de
cinco ou seis pessoas a dormirem no chão. Era no rés do chão do enorme edifício do princípio do século que preside as traseiras do
Font-Romeu. O quarto ficava à direita do amplo hall, que tinha uma grande escadaria em forma de caracol com corrimões de mármore a mostrarem que, noutros tempos, tinham feito parte do esplendor da burguesia francesa. Mas agora, desabitado e escuro, parecia mais uma imitação do hotel de The Shining. A porta do quarto era de madeira grossa, com uma camada de tinta de uma cor inescrutável que começava a estalar. O manípulo e uma pequena placa de alumínio dourada onde se lia “18”, repintado com marcador, eram os únicos elementos distintivos entre as mais de cinquenta portas existentes na ala do edifício. Já lá dentro, à esquerda havia uma retrete separada por uma porta corrediça e, à direita, uma casa de banho com um lavatório, um espelho e uma banheira pequena onde só se cabia de pé.

O quarto era quadrado, de uns 18 metros quadrados, só com uma janela que, essa sim, abarcava toda a fachada norte e estava frequentemente entreaberta como prevenção, para os dias em que voltávamos para casa – o que acontecia frequentemente – e as portas estavam trancadas, e nós sem as chaves, que tínhamos perdido sabe-se lá onde. O chão estava coberto com uma alcatifa azul grossa, que nós próprios tínhamos cortado, e o único móvel existente era um beliche preso à parede da esquerda. À direita, ficava o fogão de três bicos e um forno, onde guardávamos três panelas, uma frigideira e um grelhador.

Ao lado do fogão, havia uma caixa de cereais de chocolate, cinco pacotes de bolachas, dois pacotes de meio quilo de esparguete e três de macarrão, um frasco de sal e um de orégãos, uma garrafa de azeite – o frigorífico, pequeno, raramente estava cheio –, dois frascos de tomate refogado e um pacote de um quilo de queijo Beaufort: eram estes os alimentos que compunham a nossa dieta. Com efeito, o mais normal era prepararmos uma panela de massa com tomate refogado e irmos reaquecendo no regresso do treino, quando sentíamos que começávamos a desfalecer e já não nos restava força para mais. O que importava era consumir a maior quantidade de calorias possível, para podermos aguentar o máximo de tempo a correr.

À frente do beliche, sobre uma cadeira, tínhamos colocado uma pequena televisão, onde estava sempre posto o mesmo DVD: La Tecnica dei Campioni, com gravações e análise técnica dos maiores esquiadores de montanha do momento. Antes de ir para o treino, uma sessão de vídeo motivava-nos a dar os duzentos por cento e a tentar imitar as viragens de Stéphane Brosse ou o modo como Guido Giacomelli empunhava os bastões.

A roupa estava empilhada no chão, debaixo da janela, em duas filas. Atrás, as calças, as camisas e os pulôveres, e, à frente, a roupa para treinar, os fatos de esqui, as camisolas interiores térmicas, as calças e os leggings, as luvas, os gorros… Ao lado da roupa, o ateliê do material, a prancha e as ceras para os esquis, tesouras, x-atos, bocados dos mais variados tecidos, uma serra radial, cordas e cordões com que construíamos, e também destruíamos, fazíamos e desfazíamos, todo o material de que dispúnhamos.

O resto do quarto estava repleto daquilo a que chamávamos “as nossas primeiras namoradas”: as bicicletas, as sapatilhas, as botas e os esquis, que tinham um tratamento especial dentro do estúdio. Nas paredes, pendurámos um cartaz da vigésima edição da Pierra Menta, uma corrida de esqui de montanha em equipas de duas pessoas que dura quatro dias e é conhecida como “a Volta à França do esqui de montanha”; a corrida que os maiores corredores da História tinham ganhado, a corrida que tinha de ser corrida pelo menos uma vez na vida e com a qual sonhávamos dia após dia, enquanto treinávamos, dormíamos, comíamos. Atrás da porta da entrada, estava pendurado o “Manifesto do Skyrunner”, o texto que nos dava força para aguentar o máximo de tempo a correr quando a meteorologia nos era adversa.

Assim, entre estas paredes e com muita vontade de dar cabo do corpo à custa de horas e horas de treino, foi nascendo a Fuenri’s Factory. Um grupo de amigos com duas ideias na cabeça: metros e mais metros. O resto não importava. Tanto fazia onde e como dormir, o que comer ou, se fosse preciso, não comer. O importante era treinar e competir ao máximo.

Lembro-me de ter saído de casa de bicicleta com os esquis presos na mochila e de andar 60 quilómetros para chegar à neve, esquiar
até escurecer e voltar para casa de noite, à luz do frontal, gelado. Lembro-me de ter montado a tenda no estacionamento de Astún na noite anterior a uma corrida e de nos termos levantado com 15 graus negativos, sem podermos desmontar a tenda porque tinha ficado presa ao gelo do chão, antes da participação nos Campeonatos de Espanha. Lembro-me de muitas noites de sábado dormidas nos bancos do carro ou no porta-bagagens com um saco-cama para podermos competir no domingo.

A nossa vida desenrolava-se completamente à volta da competição.

Dormíamos, comíamos o imprescindível para poder treinar e treinávamos o máximo para competir e tentar alcançar o melhor resultado possível. Todo o nosso dinheiro, que se limitava às bolsas atribuídas pelos resultados e aos prémios das corridas, era para pagar o apartamento e para comprar o melhor material, que depois destruíamos no nosso ateliê tentando deixá-lo o mais leve possível, enfrentando as devidas consequências. Íamos mudando de loja onde comprávamos as botas, porque tínhamos vergonha de comprar um par de botas todas as semanas, durante quatro semanas consecutivas.

O momento culminante foi numa quarta-feira de março, quando, sem luz no estúdio, porque era mais importante termos um bom par de bastões de carbono do que luz, eu e o Álvaro – o meu companheiro de apartamento e de corridas – estávamos no chão do quarto, com os duzentos euros do aluguer espalhados na alcatifa, perguntando-nos  se era mais importante entregá-los a Madame Levy, a proprietária, ou partir naquela mesma tarde para Arêches Beaufort, que, para nós, naquele momento, era o centro do mundo e onde, no dia seguinte, começava a Pierra Menta.

Era evidente que ambos sabíamos o que íamos acabar por fazer e pouco depois já carregávamos as malas e os esquis na Peugeot Partner branca. Fomos buscar a Naila, a minha irmã e a Mireia, a minha melhor amiga, que faziam equipa, e fizemo-nos à A9; sete horas mais tarde, chegávamos a Arêches. Em Arêches, teve início uma odisseia, a de convencer a organização a deixar-nos participar. Evidentemente, as inscrições da corrida eram concorridas e, apesar de sermos da categoria júnior, o número de participantes era limitado e já estava completo há muito. Mas não perdemos a esperança e, após horas a correr de um lado para o outro e a falar com todos os organizadores e mais algum, conseguimos um dorsal. Um dorsal da Pierra Menta.

O nosso sonho começava aqui. Dormimos no quarto das raparigas, porque tínhamos gastado os duzentos euros na inscrição e já não nos podíamos permitir gastar mais dinheiro num hotel.

A corrida foi genial; um ambiente incrível, boas vibrações, uma vitória no domingo e um segundo lugar na geral de juvenis e sobretudo muita, muita adrenalina de manhã, quando nos levantámos sabendo que, naquele dia, só uma coisa importava: competir.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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